A nudez da política

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Todas as espécies vivas, animais e vegetais, existem na inocência da sua nudez, despida de preconceitos, de ideologias e, sobretudo, de demagogia.

A Humanidade, salvo em raríssimas culturas, há largos séculos que se esconde, vestindo-se de preconceitos e aparências que iludem a inocência perdida.

É verdade que já assim é difícil, imaginemos o que seria, se agora desatássemos para aí, a expor tudo a nu?…

Bem sabemos que os sentidos são imprescindíveis, e que sem eles, viveríamos desorientados, mormente, se caíssemos no engano de seguir pelos sentidos proibidos desta vida.

Por certo, sem dificuldade concordaremos que, por vezes, são os sentidos que atrapalham o verdadeiro sentido que queremos dar à nossa existência.

E esse sentido pleno da nossa vida, esse que todos procuramos, transcende o que está para além do visível e do palpável. Esse é mais da dimensão do imaterial, do inefável, por outras palavras, da espiritualidade.

Quando de repente nos deparamos com os actores da política portuguesa, a reclamar a nudez, uns aos outros, constatamos que o recurso a uma linguagem que lhe não é própria, só pode significar uma coisa, precisamente a perda de sentido, não só do discurso político, mas também de uma actividade que devia ser nobre, pautada por elevação no trato recíproco e descontaminada do império dos sentidos.

A nudez dos políticos, hoje tão reclamada pelos arautos do populismo, não significa a chegada do reino da transparência, da integridade e da ética, mas sim, do espectáculo, do exibicionismo que os “entreteiners” vão esgrimindo, para deleite dos “vueristas”, que se consolam a comentar, por todo o espaço mediático, publicando opinião, que nem sempre vira opinião pública.

Privado é sagrado

Do circo ao cabaret, vai apenas a ousadia de deixar cair alguns trapos, transformando o Parlamento, a Casa da Democracia, num lugar onde acontecem coisas que nos fazem rir, ou pior do que isso, nos fazem corar de vergonha. E não é a nudez que nos envergonha, é a falta de respeito pelo lugar da Democracia, a falta de respeito pelos cidadãos eleitores e a irresponsabilidade.

António Marinho e Pinto

Enquanto a política, e o essencial do que lhe dá sentido, é um número adiado, o que pontua na agenda do quotidiano mediático, são os “faits-divers”, os “sound bites”, as gafes e os “lapsus linguae” que tudo vão pondo a nu, para tristeza colectiva de um povo, que assim vai vendo a dimensão das misérias, de um sistema político que já não consegue esconder a sua decadência.

Para quem ama a Liberdade, como eu amo, a esfera do privado é “sagrada”. E é nessa esfera que toda a nudez dá sentido e beleza à vida. Nesta minha convicção, o que acontece e pertence à esfera do privado alheio, é-me absolutamente indiferente e não me faz perder um segundo que seja.

Entre a transparência da treta e o direito à privacidade, está algures o sentido da nudez da vida. E esse equilíbrio, ao que parece, não faz sentido para os políticos.

Então porque abusam da linguagem, esquecendo-se que há um país, um povo, uma infância e uma juventude, com os olhos e os ouvidos postos em si, que é preciso, no mínimo, respeitar?…

 

Victor Dias

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