A única mulher

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A única mulher
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1.- Sei que é a telenovela mais vista em Portugal: “A única mulher”, todos os dias de segunda a sábado, na TVI. Por isso durante alguns meses a tenho seguido, se perder algum dia, tudo estará na mesma, por que o fim se ditará no último episódio. Culturalmente é “erva daninha”, possui a cultura da não-cultura, um espaço de terror, ódio e inautenticidade. Quem tenta sintonizar a estória constata a frustração devida à infertilidade de qualquer mensagem formativa, antes uma intoxicação de mortes e de uma continuada chamada à morte e a matar. Alguns dos atores têm bom desempenho pessoal, outros parecem estar no “teatro” e outros, talvez seria melhor irem até à praia apanhar um pouco de sol. Assim, quanto à estória é uma negação de qualquer texto escrito por quem se quer colocar na senda de telenovelas ricas de conteúdo, por que esta é a negação de tudo. Salvam-se as imagens, continuamente as mesmas, cuja felicidade é dar-nos a conhecer Lisboa e Luanda, esta Angola e suas paisagens, bem filmadas e cheias de virtualidade, podendo, porém, dado que os planos filmados são sempre os mesmos, criarem a necessidade do enfadonho.

2.- Uma telenovelas da morte, todos matam, todos podem matar; o amor que tentam passar entre Mara e Luís, é desconstruído magistralmente pelo sentido único do “poder” e da “morte”. Sempre ligados: são famílias com poderio económico, algumas ligadas a bandos da morte, a possibilidade de matar por matar é o tom desta telenovela. Ensinam isso, banalizam isso, são sofredores pelo gatilho das pistolas, a que, claro, todos têm acesso simples. A polícia, neste caso tanto a PJ como a polícia angolana, não passa de um atropelo ao seu bom nome. Veja-se que os agentes falam com toda a facilidade nos cafés e bares e de tudo, das investigações, inclusive. Uma das vilãs, mãe do Luís, Pilar, presa em Angola, fugiu para Portugal, e como se nada fosse, não conseguem prendê-la. Os agentes contam às vítimas e aos assassinos como vão as investigações, sem nenhum pudor.

3.- Em determinada altura, Luena é encarcerada e maltratada, mas as suas unhas continuam a ser devidamente de gel e as calças de marca e de ganga, com os devidos rasgões. As organizações mafiosas movem-se de forma aberta e livre, quer dentro das prisões, quer fora delas, inacreditável a forma como conseguem fazê-lo. Aliás as viagens entre Lisboa e Luanda são realizadas com imperfeição total, assim como estão num país, saltam para o outro, quando a realidade é outra. A não ser que por serem atores o poderão fazer o que se traduz num encarceramento do ator, movendo-se enquanto tal e não como a personagem que interpreta. Uma telenovela seguida por quase dois milhões de portuguesas e portugueses, com imperfeições e ensinando e formando as pessoas com invólucros criminosos.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental

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