A vigarice e o faz de conta

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Começa a ser insuportável viver neste país. É cada vez mais perceptível que o que aconteceu há trinta e seis anos atrás, com a revolta de um punhado de funcionários públicos, nada de melhor trouxe que a liberdade de expressão e associação. A burocracia está maior, a corrupção mais profissionalizada, a insegurança instalada em cada mente, da despesa pública já escasseiam palavras para descrever o desastre, o valor do mérito suplantado pela promoção da mediocridade e facilitismo e a promoção da cidadania apenas reforçada de quatro em quatro anos. Tudo isto num misto de faz de conta manuseado ao belo gosto de vigaristas, reforçado por mentecaptos, ingenuamente seguido por burros e aplaudido por seres dos quais eu tenho sérias dúvidas que saibam sequer escrever, sem erros, os seus nomes ou o local onde vivem – isto, claro, quando esses vigaristas não precisam que eles vivam noutros locais.

Há trinta e seis anos que se promove esta aberração de sociedade em que metade anda a aldrabar a outra metade; em que uns trabalham e outros descansam e recebem por isso; em que uns fazem doze anos de ensino para ingressar num curso superior e outros apenas precisam de uma entrevista; em que uns declaram todos os seus rendimentos e outros fazem férias de luxo quando aparentemente são desempregados; em que uns demoram cinco anos para pagar um automóvel e outros conseguem-no gratuitamente à conta de uma empresa municipal qualquer; em que uns têm de aturar estágios não remunerados quando outros entram directamente para administradores de empresas, com capital do Estado, só porque são filhos de presidentes desta República das Bananas; em que uns têm de pagar uma licença de construção de mais uma divisão na sua casa enquanto outros usam a sua posição política para deixar construir centros comerciais em reservas ecológicas e ganham dinheiro com isso para si e para a sua família; em que uns são presos por, em auto-defesa, matar criminosos enquanto outros condenados, por abuso sexual de menores, têm tempo de antena e vitimização num canal de televisão pago por nós; em que uns não têm qualquer ajuda para criar o seu próprio posto de trabalho enquanto outros criam empresas que recebem serviços exclusivos de autarquias e do poder central; em que uns têm de pagar estudos de viabilidade caríssimos para um Aeroporto que ia ser construído num lamaçal enquanto outros, parece que políticos e donos de uma ética e história inquestionável, compram antecipadamente esses terrenos; em que uns têm de ir a unidades de saúde do país vizinho enquanto outros promovem uma linha de alta velocidade que ninguém precisa, mas que todos vamos pagar; em que uns não têm saneamento em pleno século XXI enquanto outros constroem, com o dinheiro desses, estádios de futebol que representam para as autarquias milhares de euros de despesa mensal; em que uns trabalham todos os dias para no final do mês receber quinhentos euros enquanto alguns (muitos) com cartão rosa-alaranjado usufruem de salários milionários em empresas públicas ou disfarçadas disso; em que uns são marginalizados por serem verdadeiros e frontais enquanto outros abanam com a cabeça e baixam as orelhas para não perderam verdadeiras panelas e posições que ironicamente contrariam até as suas orientações políticas – pelo menos aquelas que publicamente se conhecem. Parece novela, de facto. No entanto, o mais engraçado disto tudo é que toda a gente sabe que é assim e que isto acontece! Há trinta e seis anos que são sempre os mesmos, há trinta e seis anos que se vive neste marasmo democraticamente eleito também pelos mesmos! Tudo num esquema de vício perfeito de vigarice, atropelos, ganância e egoísmo.

A vigarice e o faz de conta são artes tradicionais portuguesas, aperfeiçoadas com o passar do tempo, infalíveis para atingir qualquer lugar ao sol. Este jeitinho nojento de ser, que todos parecem gostar, todos parecem compactuar e até querer usufruir, é o verdadeiro sistema e está ao virar de cada esquina. Melhor, os mentecaptos votam, batem palmas, zurram e acreditam piamente nesta arte vezes e vezes sem conta mesmo que todos os dias sejam violentados intelectualmente por ela. Não há personalidade, não há sentido crítico, não há esperança. O que está aqui em causa já não é o pão ou o circo, mas sim uma constatação de que a maioria gosta disto, está viciada e mentalizada para acreditar nesta grande trafulhice camuflada de normalidade. A vigarice e o faz de conta são, de facto, a melhor área de negócio que esta espécie de estado de direito tem para oferecer. Para uns é igual, para outros Deus a guarde.

Manuel Oliveira, Presidente da Juventude Popular da Maia