Abrunhosa, o Pedro

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Recentemente, na minha qualidade de Director Artístico do Coral Infantil Municipal dos Pequenos Cantores da Maia, tive o privilégio de trabalhar com Pedro Abrunhosa, colaborando na interpretação de uma canção com letra e música da sua autoria.

Confesso que, mais uma vez, confirmei a minha convicção de que só devemos falar com propriedade aquilo que conhecemos.

Antes desta minha convivência com o músico, tinha já uma opinião formada sobre o artista. Mas hoje, além dessa que agora é mais consistente, tenho também uma opinião sobre a pessoa.

Em palco

Assisti em condições muito particulares, que me permitiram uma perspectiva porventura bem diferente da dos demais espectadores, ao concerto que Pedro Abrunhosa deu em Famalicão, na Casa das Artes, no qual participaram os Pequenos Cantores da Maia.

E desse meu ponto especial de observação, aquilo que pude analisar foi extraordinário.

Para além da música, que, sem dúvida, toca as pessoas e mexe literalmente com elas, Pedro Abrunhosa em cima do palco, transfigura-se completamente, e vira, de facto, aquilo que na gíria se chama um “animal de palco”, quer dizer, um ser que respira e se movimenta sem segredos, sem rodeios ou obstáculos, no seu habitat natural.

Imagem:  Facebook Pedro Abrunhosa
Imagem: Facebook Pedro Abrunhosa

A sua comunicação com o público é poderosamente invulgar. Há momentos em que parece hipnotizar as pessoas, conseguindo delas tudo quanto lhes pede. Põe-nas a cantar, dançar, levantar as mãos, pular e repetir fraseados vocais, num mimetismo magnético surpreendente. E mais pedisse, mais teria…

Ao longo de mais de duas horas, o que aconteceu ali foi electrizante, pura energia e uma verdadeira simbiose entre público e o “show man”.

Abrunhosa percebe muito do assunto, sabe como agarrar o público, e tê-lo na mão o tempo todo.

É verdadeiramente um profissional do “mettier”, que não deixa nada ao acaso, inclusive os pormenores aparentemente mais insignificantes, como por exemplo, o tempo e o modo, como reaparece depois de um concerto.

Em estúdio

A experiência que juntamente com as crianças partilhei com Pedro Abrunhosa no seu estúdio privativo, nos “Boom Studios”, revelou a outra face do mesmo artista.

Naturalmente mais descontraído, mas igualmente muito profissional e perfeccionista.

Nesse ambiente, claramente menos carismático, mas bastante mais pragmático e muito focado no seu objectivo, quer como músico compositor, mas também como produtor.

Chegou e rapidamente encontrou um registo fácil, bem disposto e muito apropriado ao momento, logrando conseguir dos Pequenos Cantores da Maia, a melhor performance possível.

Houve momentos em que brincou, disse umas graçolas com muita graça, e utilizou algumas imagens mentais que facilitaram imenso a prestação musical e artística das crianças, criando um clima de brincadeira, em que a Música era o jogo.

Dei comigo a pensar, em certos instantes, que o Abrunhosa, afinal era o Pedro, um crescido com a alegria, a energia e sentir de uma criança. Foi bonito de ver e de partilhar.

Como o próprio me confidenciou, ser músico e ser criança são duas condições que convivem muito bem e têm muito em comum.

Aquele Pedro Abrunhosa, actor social, que reinventou a moderna Música de intervenção acutilante e, não raras vezes, politicamente incorrecto, que canta canções cujas letras nem sempre são cómodas, chegando a ser subversivas, afinal também é capaz de se fazer menino, é capaz de brincar, e falar de filmes e histórias divertidas.

Francamente, tenho de admitir para mim próprio, que reconhecendo em Pedro Abrunhosa, um daqueles músicos, autores e compositores que descobriu a fórmula mágica de fazer êxitos em série, o que é invulgar, também lhe reconheço agora, pela proximidade que nos reuniu neste projecto, uma sensibilidade especial para lidar e trabalhar com as crianças.

E Pedro Abrunhosa é um felizardo, porque na sua equipa, conta com outras pessoas, com semelhantes qualidades, como entre outros, o seu engenheiro de som, João Bessa, um técnico muito sereno, que demonstra uma tranquilizante calma, e transmite às crianças e aos que as dirigem, uma confiança muito inspiradora.

É sempre bom conhecermos melhor as pessoas, para podermos fundar com mais verdade e assertividade, as nossas percepções e opinião a seu respeito.

Abrunhosa, o Pedro, é o verdadeiro artista, porque em palco, no estúdio e na vida, cada coisa a seu modo e a seu tempo, tudo nele é verdade, principalmente, tudo aquilo que é nele, essencialmente profissional.

Quem ama o que faz, a meu ver, só pode ser assim…e esta foi a lição que eu procurei que as crianças interiorizassem, porque é esta atitude que faz a diferença entre um artista e um grande artista…

Victor Dias

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