Defender a selvajaria é próprio da civilização?

0
278
- Publicidade -

Quando há dias tomei conhecimento pelos telejornais dos dois actos bárbaros perpetrados por dois selvagens, confesso que fiquei profundamente incomodado com esses hediondos crimes. Durante longos minutos, senti-me mesmo tomado por uma funda tristeza, que me levou a um silêncio meditativo, sem o qual talvez não me fosse possível recuperar, tão cedo como eu precisava, a lucidez para discernir sobre uma realidade que esmaga a ficção, de tão cruel e horrível como é…

Nada, mas absolutamente nada, pode desculpar a barbárie de um “pai” que tira a vida ao seu próprio filho, com a agravante de que o pobre inocente, era um bebé de apenas 6 meses, morto com uma faca espetada no peito. Meu Deus, como é possível???…

Do mesmo modo, não se encontra, por mais exercícios de psicologia criminal que possamos encetar, qualquer réstia de fundamento que sequer explique que um homem espanque selvaticamente um menino de quatro anos e uma irmã, levando o primeiro à morte e deixando a segunda às portas desse mesmo fim. Onde está o coração deste homem???…

Temos de compreender a objecção de consciência invocada pela jovem Advogada que pediu escusa à defesa oficiosa do “pai” assassino que tirou a vida ao seu bebé. Certamente que essa sua decisão corajosa, vai ao arrepio de tudo quanto lhe foi ensinado na Faculdade de Direito onde se formou. Mas reconheçamos, que é preciso ter estofo emocional e serenidade de inteligência, para cumprir bem uma função, que naquele caso em concreto, era nada mais nada menos que defender o contrário do que a sua consciência certamente a impelia.

Se analisarmos com a ponderação que o assunto reclama, percebe-se que a decisão que a Advogada tomou, acaba por beneficiar o assassino, na medida em que este pode contar agora, com o patrocínio na sua defesa, de um outro Advogado, porventura mais experiente e habituado a não se deixar influenciar pelas emoções e convicções pessoais mais profundas.

justiça

Estes dois seres desumanos, desprovidos de sentimentos e de qualquer razão que regule os seus actos, têm de ser inequivocamente condenados e afastados da sociedade, quer para a proteger da sua selvajaria, mas também para tentar recuperá-los e dar-lhes uma oportunidade de se arrependerem e encontrar um caminho de vida mais humano e digno. Uma oportunidade de, algum dia, virem a ser realmente pessoas dignas da sua humanidade.

Creio que fica clara, a minha absoluta reprovação e condenação das inenarráveis maldades cometidas por estes dois homens, que têm de pagar pelos seus hediondos crimes.

No entanto, à luz das minhas, igualmente profundas, convicções morais, éticas e cívicas, não posso deixar de defender o seu direito a um julgamento justo, no qual terão oportunidade de se defenderem diante um Juiz de Direito, com o apoio do seu Advogado de defesa.

Há por vezes acontecimentos que nos tiram do sério, que nos deixam revoltados e quase nos fazem descrer na Humanidade, como estes dois nefastos factos que foram amplamente noticiados. Mas não podemos cair na tentação populista de uma justiça popular, e num juízo fácil, fortemente impulsionado pelas emoções à flor da pele.

O Direito e a Justiça, por mais que nos insurjamos contra a sua falta de celeridade e dificuldades de funcionamento, são pilares imprescindíveis de qualquer sociedade civilizada.

Enquanto cidadão e crente Cristão, procuro nunca perder este norte da civilização, que nos ajuda a apartar, com claridade de espírito e sentido da ética, o trigo do joio, quer dizer, que nos ajuda a discernir e separar, o bem do mal…

Em suma, eis a única resposta possível: – ao contrário da barbárie que não concede aos mais inocentes entre os inocentes, qualquer defesa, a civilização distingue-se justamente, por não negar a defesa a ninguém, nem mesmo aos mais cruéis entre os bárbaros…

 

Victor Dias

- Publicidade -