Defender a escola pública é dar-lhe melhores práticas de gestão

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A propósito da mais recente polémica que envolve os estabelecimentos de ensino particular e o Estado, representado pelo atual Governo, tem sido com estupefação que me deparo com uma distorção sistemática da essência do problema.

Honestamente, tenho antes de mais, de afirmar com toda a clareza que sou Cristão Católico. Mas isso é para mim uma questão de Fé, não de ideologia. E não percebo porque querem arrastar a Igreja Católica para este “fait-divers”, quando o problema é de outra natureza, quer dizer, não é nem confessional, nem ideológico.
Para não tomar as dores alheias, e para não me limitar a reproduzir o que pensam e dizem os outros, vou alicerçar a minha opinião na minha experiência pessoal.
Tenho duas filhas e ambas passaram pelos dois sistemas de ensino, o particular e o público.

A minha filha mais velha fez os seus primeiros estudos num colégio particular, e fez o 2º e 3º ciclos do básico, mais o secundário, no ensino público. Hoje encontra-se a terminar o curso de Medicina, o que a meu ver pode abonar em favor das virtudes da escola pública que frequentou, a Secundária da Maia.

A minha filha mais nova, que se encontra igualmente no ensino superior, mas na área de Finanças, também fez o seu primeiro ciclo no mesmo colégio privado, depois fez o 2º e 3º ciclos do básico no público, e concluiu o ensino secundário no privado.
Face às experiências que acima partilho convosco, creio que me poderá ser reconhecido algum conhecimento de causa.

Acrescento apenas que no colégio onde fizeram todo o primeiro ciclo, a orientação do mesmo era confessional, Católica portanto. Contudo, havia lá crianças de várias confissões religiosas, e também havia crianças de famílias mais humildes que não pagavam rigorosamente nada.

Que diferenças eu notei?

Entre o ensino privado e o público, desde logo a maior diferença é que no colégio privado, direção, professores e funcionários eram parceiros na educação das minhas filhas. Além do ensino, havia um enorme cuidado em transmitir valores cívicos, éticos e morais, boa educação e boas maneiras.

Uma das maiores diferenças que notei foi na gestão de recursos humanos e no acompanhamento personalizado dos alunos. Cada aluno é um caso único e é tratado a todos os níveis como uma entidade irrepetível que é cuidada sempre nessa perspetiva. As crianças e jovens eram acompanhadas não apenas no que dizia respeito ao desempenho escolar, mas numa visão holística do ser humano que sempre me agradou imenso.
Por seu lado, no ensino público, também encontrei professores e funcionários dignos das missões que lhes estavam confiadas, mas a forma de abordar o aluno e o seu desenvolvimento não era de todo semelhante. Em várias reuniões em que participei, até como representante dos encarregados de educação, notei sempre uma tensão latente que opunha professores a pais, como se os interesses de ambos não devessem convergir. Várias vezes ouvi professores afirmar que o seu papel era ensinar, mas que educar era com os pais. E é verdade que a primeira responsabilidade de educar é dos pais, mas a sociedade não pode ficar à margem da missão de educar, e nos colégios privados por onde as minhas filhas passaram, educar nunca foi uma missão exclusiva de ninguém.
Faltas, questões pedagógicas, desorganização funcional, desinteresse e desmotivação dos professores, nunca foram problemas no ensino privado. Em sentido oposto, tive por diversas vezes de ir à escola pública, para chamar à atenção sobre situações desse género, que comprometiam a evolução dos alunos.

Nos colégios privados havia uma única pessoa que mandava e que pedia responsabilidades a todos, fossem professores, funcionários, pais ou alunos. Ao prevaricar ou sair fora das normas instituídas, eram responsabilizados. Tenho dúvidas, tenho mesmo muito sérias dúvidas que os custos que os estabelecimentos de ensino público têm sejam mais controlados do que os privados.

A eficiência na gestão do ensino privado, na sua relação custo/benefício, apresenta seguramente rácios que merecem ser estudados pelos gestores públicos das escolas e da administração central.
Num tempo em que a governação assenta fundamentalmente em pressupostos economicistas, fará sentido levar esta questão para o território ideológico?
O diferendo que opõe o Governo às escolas privadas não radica em contratos e em questões de dinheiro?

Se assim é, e pelos vistos é mesmo, exijo enquanto cidadão que me apresentem evidências e factos inteligíveis que me permitam tirar conclusões justas e politicamente sérias.
O Estado de Direito Democrático é pessoa pública de bem que honra os seus compromissos e pugna pela boa gestão do dinheiro dos contribuintes.
Se levarmos para a escola pública, as melhores práticas da boa gestão, estaremos a defendê-la da forma mais eficaz que pode haver e com mais aderência por parte da cidadania, do que se o fizermos pelo lado da ideologia.
Estou convicto de que a adoção do modelo de gestão pedagógica e financeira dos colégios privados, por parte das escolas públicas, seria a melhor forma de defender o ensino público e a boa governança dos nossos impostos.

Victor Dias

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