É a Democracia, senhores, é a Democracia…

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Tal como eu esperava, os líderes europeus, diante da ameaça à sua zona de conforto, apressaram-se a reagir da pior forma possível ao veredito que o povo britânico expressou nas urnas, ditando a saída da União Europeia.

A linguagem do “economês” voltou no “day after” a inundar o discurso político das lideranças e das elites europeias, mostrando-se muito preocupadas com a crise financeira que já se abateu e vaticinando cenários de futuro dramáticos, ao nível das previsões macroeconómicas para um futuro próximo.
Tudo, ou quase tudo, ao contrário do que devia ser dito e melhor do que dito, devia ter sido atempadamente pensado e porventura mesmo concretizado.

70 anos de Paz na Europa

O grande debate político que ocorreu na Grã Bretanha, ao longo de todo o processo que antecedeu o referendo, foi contaminado precisamente pelo “economês” soprado de Bruxelas. Aliás, muito na linha da política europeia, que diante dos problemas mais graves e ameaçadores, se equacionam pela via das contrapartidas financeiras, cedendo quase sempre às “chantagens veladas” dos seus interlocutores.
Mas o problema que o anúncio da realização do referendo à permanência na Europa veio trazer para o nosso futuro comum, não é apenas, ou não será mesmo de todo, um problema económico e financeiro.

Por cima da economia e da finança, há mais Mundo na Europa. Há 70 anos de uma Paz relativa, considerando que depois das 1ª e 2ª guerra mundial, com epicentro no eixo Berlim, Londres e Paris, o continente viveu um período de acalmia, estabilidade e desenvolvimento humano e social.
Pese embora todas as ineficiências, defeitos e vícios políticos da União Europeia, a verdade é que os povos e os seus governantes vinham mantendo nas últimas décadas, um diálogo político, social, económico, geoestratégico, intercultural e institucional muito positivo e pacificador.

Muito mais do que as negociações económicas, muito mais do que os mercados e as musculações de gestão do poder, por via da União Europeia, os europeus falavam uns com os outros e partilhavam o mesmo espaço continental, numa perspetiva de um condomínio com 28 proprietários, cuja correlação de poder e mandato funcionava sensivelmente na mesma lógica da gestão de condomínios, quer dizer, contribui mais quem tem mais área e usa mais o espaço e os bens comuns.

Com a saída dos britânicos, perde-se um condómino importante, com uma opinião que contava muito para o equilíbrio de forças e para quebrar a ameaça da hegemonia económica e política de Berlim.
Mas também se perde um parceiro fundamental no xadrez geoestratégico mundial, com uma palavra decisiva do ponto de vista militar. Creio contudo que não se perde, nem um vizinho com peso geoestratégico e militar, nem um parceiro da União, ainda que fora dela, pela simples razão de que o futuro da Grã Bretanha e também a sua própria segurança e integridade territorial passam pela relação estrita e amiga com os ex-parceiros comunitários.

No entanto, sem embargo da validade de tudo quanto acima invoco, a verdade é que a Democracia, numa cultura que nessa matéria pede messas a qualquer outra, funcionou com a normalidade que se esperava.
Os britânicos fizeram a sua escolha e por mais que os mercados e os líderes europeus estrebuchem, será feita a sua vontade.

É a Democracia a funcionar, mesmo contra a vontade de Bruxelas, de Berlim ou de outras capitais e de outros senhores…

Victor Dias   

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