A derrota dos donos da Europa

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O processo que levou o português António Guterres ao mais importante cargo da Organização das Nações Unidas revelou várias realidades que a diplomacia não ignora, mas que agora também nós, cidadãos comuns, ficamos a conhecer melhor.

Recordo frequentemente as sábias palavras de um professor meu, na faculdade, que afirmava sem tibiezas que: – “entre estados a amizade é para a fotografia pública, tudo o resto é sempre um jogo de interesses”.

Podia aqui desfiar um role de argumentos e observações sobre Guterres e sobre as circunstâncias da sua eleição, mas prefiro focar-me na derrota dos eurocratas e da mulher mais influente da Europa, refiro-me, é claro, à senhora Merkel.

Compreendo que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros tenha afastado o cenário de derrota da União Europeia, e acho que fez bem, até porque tínhamos o apoio da França, mas não há como esconder a aversão de alguns eurocratas e líderes europeus que não perdoaram a António Guterres, enquanto Alto Comissário da ONU para os refugiados, as críticas acutilantes e até uma certa censura moral, pela inércia política da Europa, diante um drama humano que alguns países da União Europeia teimam em ignorar, sacudir para os vizinhos ou hostilizar mesmo quem desesperadamente os demanda.

Confesso que tive alguma dificuldade em perceber o posicionamento da chanceler alemã nesta matéria, atendendo às dificílimas posições políticas que tomou no seu país e no contexto europeu, a propósito dos refugiados, pelas quais aliás, está já a pagar uma avultada fatura política doméstica, com sucessivas derrotas eleitorais em sufrágios regionais por toda a Alemanha.

Como pode a Europa da União clamar por transparência e lisura de processos na escolha dos representantes da OUN, se ela própria se deixa enredar numa teia de interesses pouco claros e negociados na sombra?

Porque razão investiu tanto a Comissão Europeia numa candidatura de última hora, protagonizada por uma comissária de leste, quando Guterres já estava na ponta final e muito bem colocado para ser o aclamado?

Havia necessidade da União Europeia dar mais este sinal de desunião e desnorte político ao Mundo? Alguém acredita que esta inabilidade para o jogo diplomático internacional fortalece a Europa? Não há como fazer vista grossa, foi uma derrota, sim senhor!…

Estou naturalmente satisfeito por termos um compatriota nosso naquele lugar, mas o que mais me entusiasma é saber que com ele, podemos acalentar a esperança de ter na ONU, um homem que com toda a certeza vai procurar os caminhos da Paz.

Penso que de certo modo, o facto da sua candidatura ter conseguido em Portugal, que toda a classe política e o povo, se tenha unido, no desejo que o desfecho fosse aquele que felizmente se concretizou, é porventura um bom augúrio para o seu consulado.

Uma nota final, para a falta de jeito do secretário-geral cessante. Uma falta de jeito que manteve até ao fim, provando a sua inabilidade, pouca imparcialidade e independência, intervindo desastrosamente num processo de sucessão, que recomendava da sua parte, recato e tento na língua. Falta de jeito e de competência, que explica a situação em que a organização se encontra, revelando hoje, uma manifesta dificuldade na intermediação de conflitos e numa confrangedora submissão ao poder absoluto do conselho de segurança.

Quanto à questão da igualdade de género, creio que o lugar de secretário-geral da ONU exige de quem o exerce, um perfil humano e político que não pode de modo algum, ser condicionado a uma escolha que eleja como qualidade essencial, o género feminino, como tantos quiseram fazer depender.

Admito, no entanto, que numa situação de confronto entre dois candidatos de género diferente, que apresentassem exatamente o mesmo nível de qualidade dos seus pergaminhos, a escolha pendesse para o lado feminino. Mas neste processo, isso nunca aconteceu, porque nenhuma das candidatas pôde ombrear com Guterres, em termos de experiência política, diplomática e, sobretudo, ninguém percorreu os caminhos por onde ele já passou, estando cara-a-cara com aqueles que encarnam o drama da guerra, das perseguições e do terror.

Se é certo que alguns foram derrotados e perderam, o que na verdade importa, é que a Paz ganhou um interlocutor talhado para o diálogo.


Victor Dias

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