Dissonâncias

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Na Música, as dissonâncias têm, não raras vezes, as suas virtualidades, no sentido em que após os instantes de tensão que provocam no ouvinte, proporcionarem logo a seguir, momentos de alívio, conforto e bem-estar, pela resolução harmónica que, normalmente, os compositores criam nas suas obras.

Esta alternância, entre dissonância e consonância, é transversal a todos os géneros musicais, muito embora esteja mais patente e seja utilizada com maior mestria, nuns do que noutros. Por exemplo, no Jazz, ou mesmo na música “Erudita” moderna e contemporânea, o recurso a essas técnicas de composição e de expressão, são mais exploradas.

Que eu saiba, apesar dos músicos terem por método, ensaiar bem as suas performances, embora também se disponham ao improviso e à espontaneidade criativa da música ao vivo, de novo muito tradicional no Jazz, no entanto, não dispensam uma boa preparação, quando têm de partilhar o palco com outros artistas, para que tudo flua da melhor forma.

Um ensaio com dezoito horas, como foi o Conselho de Ministros do passado sábado, para preparar o Orçamento de Estado, que irá a debate na Assembleia da República, parece-me que soa a qualquer coisa de estranho.

Sempre pensei que os vários ministros articulassem com o Primeiro-Ministro, as orientações estratégicas dos seus contributos sectoriais para a feitura desse instrumento crucial da governação política do país.

18 horas?

Assim, não compreendo como é possível que uma reunião do Governo, para tratar desta matéria, possa durar dezoito horas.

Não compreendo que o Maestro, quer dizer, o chefe do Governo, aceite outra coisa que não sejam as propostas que antes foram objecto da sua orientação e coordenação.

Compreendo que possa haver lugar, a pequenos retoques de pormenor, na redacção e na forma de prever a implementação de certas medidas contempladas no OE, mas já fica difícil de entender que possa haver alterações profundas de conteúdo, que demorem horas a fio, para serem analisadas, rebatidas e cuja recusa obrigue a um confronto político no seio do Governo.

Para mim, não há dúvidas, que agora, que estamos a menos de um ano, da próxima prova de fogo, para os partidos que estão a governar em coligação, as fífias, as desafinações e as dissonâncias entre os vários chefes de naipe, e os outros instrumentistas, começam a ser de difícil concertação, e a manterem-se para além do que é desejável e suportável.

Começa a ficar bem visível, a enorme dificuldade de articular ministérios em que o titular da pasta é de um partido e alguns dos seus Secretários de Estado são do outro partido da coligação e vice-versa…

Solistas

O Ministro dá uma nota, e o Secretário de Estado dá outra que não é consonante, mantendo-se ambos em desarmonia, e tensão, por um tempo demasiado longo. Tem sido assim no naipe da Educação, da Segurança Social, da Justiça e até na Agricultura.

Como se não bastasse o Vice-Primeiro, tem dado uma de solista, antecipando algumas notas que competia ao Primeiro-Ministro dar, o que não é novo, ou não conhecêssemos já bastante bem a peça…

Receio, a julgar pelos desacertos de ritmo, pelas disparidades de repertório e sobretudo pela tensão que se vai notando, que esta orquestra governamental, se desentenda de vez, e fiquemos sem Maestro e sem músicos, antes do concerto legislativo de 2015.

Passos_Coelho_Paulo_Portas_thumb.jpg

Creio que aqui se aplicaria com alguma propriedade, aquela velha história do músico que chega atrasado ao ensaio, e pergunta ao concertino Paulo, o que é que o Maestro Pedro está a ensaiar? Ao que ele responde, o que ele está a ensaiar não sei, mas agora também não interessa nada, o que eu quero que tu ponhas na tua estante, é a sinfonia “Legislativas 2015”, e comeces a ver aquele andamento, em que se vai tocar a música conforme a dança das cadeiras no Parlamento… É aí que o músico pergunta, se essa obra não é para ensamble, ou só para quarteto? Ao que o concertino, sem pestanejar, afirma: – “…é, é sim senhor, mas também é irrevogável!… custe o que custar, a nossa estratégia é tocar na orquestra… nós somos poucos mas bons…”, enquanto pensa “nem que seja a desafinar e a multiplicar dissonâncias”…ou não tem sido assim que temos levado a nossa música “avante”?…

Uma dissonância assim, por mais dissimulada que esteja, é desconcertante, e nada garante, antes pelo contrário, que em 2015 consiga o aplauso maioritário do público eleitoral português, ainda que se prometa, para 2016, Música para os ouvidos dos contribuintes, na partitura do IRS…

 

Victor Dias

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