Esta é a hora

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Enquanto os aparelhos partidários estão absorvidos com as questões tácticas, enquanto se preocupam com os alinhamentos e reposicionamentos panorâmicos, obedecendo a uma dialética que já não adere muito bem à realidade, insistindo na já gasta rosa-dos-ventos políticos, que arruma à esquerda e á direita, partindo de um eixo central, há uma realidade que clama por outra coisa, que clama por uma política mais séria e menos tacticista.

Creio que nenhum político pode estar de consciência tranquila, num momento em que vários relatórios independentes, produzidos por instituições internacionais de reconhecida competência e prestígio no seio da Organização das Nações Unidas, revelam que Portugal foi o país que mais afundou, aumentando assustadoramente, repito, assustadoramente, o risco de pobreza irrecuperável, ficando em primeiro lugar neste “ranking” da vergonha.

O relatório que a Rede Europeia Anti Pobreza coloca hoje sobre a mesa dos partidos com assento no Parlamento, é inequívoco e irrefutável, confrontando os deputados com uma realidade que não pode ser escamoteada.

Enchemos a boca guizalhando aos quatro ventos que não somos a Grécia. E na verdade não somos, porque até a Grécia, essa economia da zona euro que está permanentemente ameaçada de banca rota, apresenta índices de risco de pobreza efetiva, consideravelmente abaixo dos nossos.

Para os partidos, para todos os partidos que vão a votos em Portugal no próximo outono, o combate à pobreza devia ser a primeira das primeiras prioridades políticas.

Este problema que é estrutural, não se resolve certamente apenas com políticas de solidariedade social ou de assistencialismo com tiques neoliberais que fazem lembrar o Estado Novo. É um problema muito sério que requer um envolvimento comprometido de todas as instituições políticas, desde o Governo da República, às últimas fileiras do poder local, mas que não dispensa os agentes económicos, as instituições e organismos da administração central, regional e local, e toda a sociedade em geral, naquele que tem de ser verdadeiramente um desígnio nacional. Mais, estou certo que este tem de ser o primeiro desígnio político em Portugal, sem o qual não haverá futuro.

parlamento AR

Nenhum país sobrevive enquanto Estado viável, economicamente sustentável, política e socialmente coeso, se não cuidar em primeiro lugar de erradicar a indignidade da pobreza crónica e generalizada.

Considero pois, que esta é a hora da política e dos políticos se preocuparem menos com os arranjinhos tácticos, com a distribuição de lugares, e com a musculação da correlação de forças entre distritais partidárias, e tratarem de uma vez por todas, de pensar e elaborar propostas políticas eficazes que visem resolver de forma estrutural e sustentável, o maior constrangimento político e social que envergonha Portugal no concerto das nações ditas civilizadas e desenvolvidas.

Nenhum partido, nenhum líder político poderá vir falar de esperança e confiança, se não nos trouxer na mão, um programa de governo e um rumo, cuja rota apresente à cabeça do seu mapa político, precisamente o combate à pobreza. A boa consciência e a boa-fé, não lhes deve permitir outra coisa.

Deixo-vos com as palavras sábias e autorizadas do Papa Francisco: -“…um país só é grande quando não deixa os pobres para trás!…”.

Vale a pena ainda trazer à colação outra afirmação do Papa do sorriso, cujo significado merece funda reflexão: – “…Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim, simplesmente empobrece…”.

Na verdade, todos bem sabemos, nós e os políticos que havemos de eleger, que a Paz social, não será possível sem Justiça social, e consequentemente sem um combate político e social bem organizado e bem coordenado, ao flagelo da pobreza, atuando nas suas causas, mas também na neutralização imediata dos seus efeitos.

Toda a gente é pessoa. E essa é uma igualdade que nos irmana numa dignidade fraterna e de semelhança na condição humana.

Para mim, e creio que para a esmagadora maioria dos caros leitores, nenhuma ideologia clássica, ou moderno ideário político programático, se sobrepõe ao valor da dignidade humana.

Enquanto cidadãos, façamos o que nos compete, porque o que nos compete é o que a nossa consciência nos impõe. Façamos sentir a quem nos promete governar em nome do bem-comum, que esta é a hora de nos provarem isso mesmo…

Victor Dias

 

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