Guterres e as Nações Unidas

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A indicação de António Guterres para desempenhar, a partir de Janeiro de 2017, o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas, formalizada na tarde de 6 de Outubro pelo Conselho de Segurança, colocou o nome do antigo Primeiro-Ministro português nas bocas do mundo – e dos governantes, políticos e todos os órgãos de comunicação social em Portugal – sobretudo pela unanimidade com que tal escolha foi feita e que suscitou um entusiasmo geral.

António Guterres é desde há muito considerado um respeitado homem de diálogo e de consensos, íntegro e detentor de uma sólida formação ética, moral e religiosa, de que terá sido evidente demonstração a maneira desapegada como renunciou à chefia do Governo de Portugal quando o Partido Socialista perdeu as eleições autárquicas e ele se recusou a gerir o pântano em que, na sua opinião, o País estava a mergulhar.

Quer se concorde ou não com esta radical atitude, ou com os motivos anunciados para a fundamentar, que se seja ou não um crítico da maneira como desempenhou as suas funções governativas em Portugal, isso não impede que se reconheça que a posterior designação de António Guterres para o ACNUR – o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados – e a forma elevada como, ao longo de dez anos, se desenvencilhou, com evidente mérito, dos enormes desafios e da hercúlea tarefa que lhe foi confiada.
A chegada ao cargo de Secretário-Geral da ONU coloca-lhe agora no regaço um pesado rol de problemas de não menor complexidade e bem maior magnitude.

Na verdade, as Nações Unidas têm vindo a perder protagonismo numa longa lista de questões que lhe deveriam ser próprios, deixando-se ultrapassar, ou cativar, pelo protagonismo de muitos Estados ou grupos de interesses.

À frente de todos colocam-se, sem dúvida, os conflitos armados que proliferam no Globo e que não têm fim à vista: a sangrenta guerra que devasta a Síria, que envolve e se estende os Estados vizinhos; o surdo conflito entre a Ucrânia e a Crimeia, onde a mão da Rússia, mesmo se escondida, não deixa de ser vista; a ameaça do Estado Islâmico e dramáticas ações terroristas que lhe estão associadas e proliferam na Europa; as guerras esquecidas e as lutas tribais que se perpetuam no continente africano, do Sudão à Somália; o interminável conflito israelo-árabe, são exemplos dessa pesada agenda.

Diretamente ligada à maior parte destes conflitos encontra-se a candente questão dos Refugiados. Embora este seja um assunto que tem merecido bondosas palavras da parte da comunidade internacional, o certo é que ele ainda não conseguiu mobilizar suficientemente todos os países do mundo, sobretudo as nações europeias e os países da orla mediterrânica onde se põe com mais acutilância.

Este é um tema que António Guterres conhece como poucos e que decerto mobilizará a sua atenção, a par da questão mais ampla dos direitos humanos, desde o início do seu mandato.

Mas há mais: a pesada e anquilosada arquitetura da Organização das Nações Unidas reclama desde há muitos anos uma profunda reforma, que a adapte à realidade dos novos tempos.

Desenhada no pós-guerra de acordo com os interesses e a visão das nações vencedoras e quando dela faziam parte poucas dezenas de países, a ONU congrega hoje 193 países, que representam as mais diversas civilizações, culturas e interesses, uma realidade que torna estranho, por exemplo, o facto de Portugal fazer parte de um grupo geográfico que inclui, também a Nova Zelândia.

Expressões como, por exemplo, “Europa de Leste”, que esteve na berra a propósito da escolha do novo Secretário-Geral da ONU, já não têm a menor aderência à realidade: pois a maior parte dos países a que ela se refere fazem hoje parte União Europeia.

A própria estrutura do Conselho de Segurança, onde China, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia conservam o direito de veto que se arrogaram quando da constituição da ONU, já não representa a pluralidade de Países que ao longo do último meio século engordaram, quase para o triplo, o número dos seus membros. A Alemanha, o Brasil ou a Índia, para citar apenas três gritantes exemplos, têm hoje um peso na Comunidade Internacional que não pode ser escamoteado e que, por isso, tem de ser objeto de mova ponderação.

A estas realidades acresce também o enorme peso da burocracia onusina e dos interesses que em torno dela se movem. Tal como acresce a questão do financiamento da atividade da ONU, que é um sério problema que se arrasta há muitos anos.

Sem esgotar a questão, não é preciso dizer mais nada para se aquilatar do grau de complexidade da missão que António Guterres vai assumir.

O júbilo generalizado com que em Portugal se está a acolher esta indigitação não deverá ter correspondência prática nos resultados que para o nosso País poderão advir da ação do novo Secretário-Geral vier a desenvolver na ONU.

É certo que esta nomeação afaga o nosso ego coletivo, e que ela também serve para trazer à coleção uma grata realidade: Portugal tem historicamente capacidade para gerar líderes de craveira internacional e, por um acréscimo de razões, de produzir pensamento, ação e comando de alto nível. E isso, naturalmente, é bom.

Há ainda um campo particular em que António Guterres poderá – sem trair nem menorizar a independência inerente ao seu novo cargo – trazer para Portugal: a defesa da língua portuguesa, que hoje já é a quarte língua mais falada na Terra.

Nas primeiras declarações proferidas em Lisboa, para agradecer a sua indigitação (por aclamação, convém recordar) para o novo cargo, António Guterres disse que o fazia com humildade e gratidão. E acrescentou que, como Secretário-Geral das Nações Unidas, o seu primeiro propósito era servir os mais vulneráveis.
É um bom começo. Resta agora esperar cinco anos para se saber se o balanço deste promissor programa de ação é positivo.


Joaquim de Matos Pinheiro
(Economista e Autor eclético de obras literárias)

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