Marcelo venceu a maratona do coração

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Ao contrário de Cavaco, que chegou ao poder depois de uma rodagem em “sprint” que surpreendeu quem estava na linha da meta, na Figueira da Foz, Marcelo venceu uma verdadeira maratona, a maratona do coração.

É interessante, agora que o ruído começa a dissipar-se e a poeira a assentar, refletir um pouco sobre a forma como o Professor construiu a sua vitória.

A vitória da emoção sobre a razão

 Marcelo é como peixe na água no contato pessoal. É uma pessoa de verbo muito fácil, afável, sorridente e sem dificuldade desmultiplica-se em cumprimentos afetuosos, procurando não deixar ninguém de fora.

Nos últimos anos de comentário, foi capaz de dizer coisas mais ou menos consensuais, trocando assuntos complexos por miúdos, e desse modo deixar na opinião pública, a ideia que estava a emitir opinião crítica, quando muitas vezes apenas se limitava a esmiuçar os assuntos, colhendo uma concordância quase sempre esmagadora, senão mesmo unânime.

A matéria em que Marcelo não brincava em serviço, era na distribuição de elogios, nas notas de mérito e na divulgação dos novos títulos que surgiam no seu escaparate, mostrando capas de todos os autores e para todos os gostos.

Em campanha

Já na estrada em campanha, Marcelo foi o solitário mais acompanhado de todos. Sim, mas pelo povo.

Tudo foi pensado e pensado muito inteligentemente.

Quando puxavam assuntos políticos, Marcelo fazia-se desentendido ou mesmo de morto, até que os inquiridores desistissem e o deixassem em paz para que continuasse a falar ao coração dos eleitores.

Outros candidatos, percebendo o benefício dessa estratégia, apontando-lhe o dedo pela falta de comparência ao debate político, acabaram no entanto por lhe seguir as passadas.

Sacudir os partidos do fato

Cedo o Professor compreendeu que tinha de sacudir o pó partidário do seu fato de candidato. E numa primeira fase, os líderes da sua área política até lhe fizeram esse favorzinho, enviando-lhe o recado que o fato que tinham cortado para o perfil de candidato presidencial não lhe servia.

Esfregando as mãos de contente, Marcelo fez questão, novamente com muita inteligência, de difundir isso mesmo por toda a sua base de apoio eleitoral.

No entanto, quando a dinâmica da vitória já era claramente visível nas sondagens, as direções dos partidos da área política que inequivocamente garantiu a sua eleição, não tiveram outra alternativa e foram forçadas a expressar o seu apoio a Marcelo.

Claro está que a gestão da aparente solidão política granjeou noutras áreas apoios muito relevantes para assegurar a vitória logo à primeira volta.

É para mim muito claro que Marcelo era o candidato do coração da esmagadora maioria dos social-democratas, ainda que a razão pudesse por vezes conflituar com o coração de alguns deles.

A TVI elege um Presidente

Na noite eleitoral, quem viu a TVI, percebia a expressão de alegria que estava estampada no rosto de José Alberto de Carvalho e mesmo de Judite de Sousa, além da euforia dos repórteres.

Num dado momento dei comigo a pensar no saudoso Emídio Rangel, enquanto diretor da SIC, deixando cair em público o seu desejo de que aquela televisão “elegesse” um Presidente, quiçá, o velho senador Francisco Pinto Balsemão.

Pois bem, creio que pela primeira vez em Portugal, um candidato sem máquinas partidárias, sem líderes políticos de primeira linha que estejam no ativo ou na ribalta mediática, é eleito à primeira, com uma legitimidade democrática inquestionável.

A TVI tinha motivos de sobra para estar empolgada, porque na verdade deu um contributo, como se diz agora, absolutamente incontornável, para a eleição de um Presidente da República.

Ilações e consequências políticas

É óbvio que há elações a tirar desta maratona do coração que Marcelo Rebelo de Sousa ganhou.

E creio que ninguém terá também quaisquer dúvidas, que mais tarde ou mais cedo, haverá uma leitura e respetivas consequências que irão ocorrer no partido do qual Marcelo já foi também Presidente. É certo que isso vai ainda levar o seu tempo, mas acabará inevitavelmente por acontecer.

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Guardo para mim a convicção de que nenhuma força política passa impune, quando corre atrás do prejuízo, e prescinde do seu papel de agente e ator político que não aceita, em caso algum, ir a reboque dos acontecimentos. E isto aconteceu no PSD, no CDS, mas também no PS. A seu tempo se verá que impactos terá esta eleição nas hostes de todos eles.

Uma última nota de rodapé

Marcelo só apresentou verdadeiramente o seu programa eleitoral no momento em que proferiu o discurso da vitória. Um discurso no qual lhe conhecemos finalmente as grandes linhas políticas e o seu verdadeiro programa.

Quero com isto sublinhar que Marcelo conhece bem as razões que só o coração entende, e nessa sabedoria, não lhe era dado arriscar inverter a ordem natural da essência do ser humano.

Marcelo, o Presidente, sabe que é a emoção que comanda a vida. E o sonho é emoção, por isso mesmo ele conseguiu concretizá-lo e ser Presidente da República.

Victor Dias

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