A minha Democracia não é melhor do que a tua

0
238
Donald Trump

Ao contrário da esmagadora maioria dos comentadores, encaro com absoluta normalidade o resultado das eleições na América. É claro que quanto às consequências da governação Trump, a minha opinião já revela alguma preocupação, ainda que moderada.

O que a meu ver, é agora importante analisar, são os pressupostos de comunicação e inteligência política competitiva com que Donald Trump se conseguiu fazer eleger.

Em primeiro lugar, fica provado que a equipa do Marketing não político foi de uma eficácia notável. Conseguiu vender Trump aos 45 milhões de americanos, como se estivesse a vender uma vacina contra políticos profissionais e carreiristas, que apresentou como maleita que corrói o sistema político e a Democracia nos Estados Unidos. E a verdade é que eles compraram o produto. Se vai funcionar ou não, isso já é outra conversa…

Um discurso de pantufas

Outra conversa também já foi a do Presidente eleito, que no discurso de vitória, calçou umas pantufas, e veio pé-ante-pé falar mais mansinho e sem dar muito nas vistas. Começou a mudar o discurso, assumindo muito disfarçadamente o papel de um político que deseja tornar-se profissional. Sim senhor, um profissional que no primeiro dia do resto da sua vida como Presidente dos EUA, já quis cativar o seu lugar para o próximo mandato.

E podiam os americanos perguntar – então Sr. Trump, ainda não aqueceu a cadeira e já lhe custa aceitar que o assento é transitório? E isso não é o oposto do que foi verberando na campanha? Então a farinha quando entra para o saco do poder passa a ser toda igual?
Olhando para o que aconteceu nas ruas, em vários estados, fico perplexo, com o mau perder dos “democratas”.

Pressão social

É claro que os sistemas políticos democráticos, em todo o Mundo, estão hoje debaixo de uma pressão de pendor social, à qual não escapa nenhum país. E não escapa, porque as consequências da globalização são, precisamente, globais, universalizando os seus efeitos, quer os positivos, como os nefastos. Nefastos, de entre os quais se destaca o afundar do fosso entre os muitos e muito pobres, e os poucos e muito ricos. Não sou, nunca fui anticapitalista, mas reconheço que existe hoje uma realidade que está a levar o sistema capitalista para um beco sem saída, insustentável e a prazo imprevisível.

Talvez seja este o problema que nos empurra para um Mundo perigoso, onde a utopia comunista colapsou, outras ideologias políticas experimentais não foram a lado nenhum, e o capitalismo na ânsia de fugir à sua responsabilidade social para com as comunidades onde investe, procura furtar-se ao tributo fiscal coletivo, escapar à regulação que a Lei impõe e mesmo assim tenta pendurar-se nos orçamentos dos estados, ignorando que desse modo pode também colapsar e lançar o Mundo num caos económico que ameaça a Paz.

Terreno para populismos

Tem sido a população desfavorecida e castigada pelos efeitos negativos da globalização da economia mundial, de capital sem rosto, de trabalho sem direitos e salários por vezes indignos e ditados por um mercado de trabalho muito desregulado e desequilibrado, o terreno mais fértil para o populismo e extremismo radical. É que em chão onde não há esperança nem horizontes de futuro, a linguagem do medo, da revolta e do confronto com os sistemas estabelecidos funciona do mesmo modo que um fósforo atirado para um tanque de gasolina.

Mas a solução, caros leitores, continua do lado da Democracia. De uma Democracia social que carece urgentemente de se refundar nos seus valores de cidadania participativa e responsável, que precisa de se tornar mais exigente, mais eficaz nos seus mecanismos de sufrágio e que tem, sobretudo, de se tornar mais inclusiva e solidária.

Cultura democrática

Os líderes democraticamente eleitos têm de estar sujeitos a leis mais assertivas e responsabilizadoras da sua ação, por forma a que a sua credibilidade não seja permanentemente posta em causa, desacreditando todo o sistema político democrático.
Se eu fosse eleitor na América, sem dúvida alguma que votaria na Senhora Clinton.
Mas diante os resultados que se confirmaram, teria a humildade democrática de aceitar a decisão da maioria, e jamais teria a veleidade de pensar que a minha Democracia é melhor do que a dos concidadãos que votaram em Trump.
Como sempre procuro inculcar na génese do meu pensamento e transmitir aos mais novos que me concedem a sua atenção, o quão é importante, que na nossa vida sejamos coerentes. Mas não prescindo de lhes fazer notar, que a coerência só é verdadeira quando a tornamos consequente.
Em suma, a minha Democracia não é melhor do que a sua, ainda que o leitor faça escolhas políticas divergentes das minhas.
É nisto que fundo a minha cultura democrática!…

Victor Dias