Não há educação sem autoridade

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Por circunstâncias naturais da minha vida tenho reflectido, com a profundidade possível, sobre a missão de educar. Uma missão que compete, na base, às famílias, com maior responsabilidade para os pais, mas que, a meu ver, pode e deve envolver, avós, tios e todos os adultos da família mais restrita. Estes membros da família não devem fazer vista grossa, aos comportamentos e atitudes que indiciem falta de educação, cabendo-lhes a obrigação moral de, pelo menos, dar conta dessas faltas, aos pais. Foi assim que eu fui educado e é assim que continuo a educar as minhas filhas, reconhecendo aos avós e tios, uma autoridade fundada nos laços familiares e na certeza de que, todos os membros da família, desejam dar o seu contributo para a boa educação dos mais novos.

Numa família, os pais, os avós, os tios, os irmãos mais velhos e as pessoas mais chegadas, têm o dever de ser uma referência ética e moral. As suas palavras, os seus actos e a forma como se relacionam com os mais novos, crianças e jovens, fazem a diferença, entre ter uma família emocionalmente equilibrada, estável e solidária, onde o respeito, a boa educação e o são convívio de todos é o cimento que a fortalece.

As crianças que são educadas neste género de ambiente familiar, em que há princípios e valores estruturantes, são normalmente alunos mais bem comportados, mais respeitadores dos seus professores e colegas e progridem melhor nos estudos, obtendo resultados mais satisfatórios.

O Professor, não sendo um membro da família é, sem dúvida, um aliado fundamental nesta missão e os directores de turma, cuja responsabilidade na escola é acrescida, são verdadeiramente, autênticos provedores das famílias, no seio da escola e junto dos seus colegas docentes, estabelecendo a ponte, entre estes e os encarregados de educação.

A cooperação recíproca entre os professores e a família, na pessoa do encarregado de educação, é imprescindível para que a missão da escola e a da família, complementares na sua acção, mas convergentes nos seus fins, sigam serenamente o seu rumo e cumpram o seu desígnio comum, o de formar pessoas, apetrechadas de conhecimentos e saberes essenciais, de normas de conduta e de vida em sociedade que façam delas, cidadãos de pleno direito, conscientes da sua responsabilidade social e capazes de, na sua idade adulta, se tornarem independentes e autónomos, tomando nas suas próprias mãos, o rumo da sua vida pessoal, no plano social, profissional e económico, ou seja, reúnam as condições necessárias para serem felizes e sentirem-se realizados.

Esta finalidade não é uma utopia, bem pelo contrário, está perfeitamente ao alcance de todos, basta que as pessoas envolvidas no processo de educação e formação das nossas crianças e jovens assumam as suas responsabilidades e cumpram bem a sua missão. Para que isso aconteça, impõe-se uma cultura de exigência, o que do meu ponto de vista, passa por um acompanhamento permanente dos educandos.

O factor autoridade dos pais, dos professores, dos membros da família mais velhos e dos adultos em geral, é importante. No entanto, a autoridade é um poder que não se tem ou exerce porque sim. A autoridade advém do respeito que é devido à hierarquia dos laços familiares, da relação em contexto escolar e social e da experiência de vida dos adultos.

A autoridade de quem educa tem de ser exercida com sensatez, com atitude pedagógica e de uma forma que deixe sempre claro, para a criança ou jovem, a sua utilidade correctiva, de algum comportamento, postura ou atitude que é merecedora de reparo ou reprovação e, se for caso disso, também da respectiva punição.

Quando as crianças e jovens têm consciência da justiça da intervenção dos adultos, no uso da sua autoridade natural e social, aceitam com maior resignação e até com arrependimento, a actuação dos seus educadores, porque percebem que eles o fazem por amor, por querer o seu bem, ou por serem profissionais de educação empenhados e responsáveis.

Sentido de justiça

É claro que quem educa tem de ter sempre um sentido de justiça apurado e, quanto a mim, não pode dar espaço às generalizações, sobretudo àquelas que remetem para o tipo de juízo: -“…paga o justo pelo pecador…”, ou “…o próximo que falar ou fizer barulho, já fica a saber, leva falta disciplinar, vai pagar por todos…”. Lamentavelmente este tipo de generalizações ainda são muito frequentes e acabam por ter efeitos muito mais nefastos e contraproducentes, do que positivos, levando aqueles que cumprem as normas e não seriam merecedores deste género de juízos, a pensar que afinal – tanto faz e não há mérito nenhum em ser cumpridor.

Numa família, numa classe ou turma, numa organização, numa comunidade e na sociedade em geral, o mérito, o trabalho e o cumprimento do dever, bem como o respeito pelas normas socialmente instituídas, tem de ser reconhecido com clareza, o que não significa que quem cumpre com o seu dever, tenha de receber um prémio por isso, porque afinal está a cumprir a sua obrigação, mas do mesmo modo, entendo que quem prevarica, perturba, não cumpre com o seu dever, tem de ser identificado para arcar com as consequências dos seus actos e das suas faltas. Não é justo que se generalize e se faça pagar o justo pelo pecador. Isso não educa, bem pelo contrário, só deseduca.

Quando os jovens se encontram em fases do seu percurso de vida, com projectos pessoais, cujos objectivos já estão bem delineados, quem tem a responsabilidade de os educar e ensinar, tem de ter imenso cuidado com a forma como lida com o seu futuro.

Actualmente a missão mais difícil é, inquestionavelmente, educar e ajudar as crianças e jovens, a crescer harmoniosamente. É uma missão quase impossível, numa sociedade em que graça o desnorte e a perda de valores faz com que nas mentes dos mais novos se gerem grandes confusões.

É por tudo isto que eu acredito que a autoridade dos pais, da família e dos educadores pode ser, quando exercida com temperança e sensatez, um motivo de confiança e orientação que melhora a auto-estima e auto-confiança dos mais novos, porque sabem onde está o porto seguro.

Pais dados ao laxismo que não se querem incomodar, que não corrigem os desvios e não actuam nos momentos certos, enfim, que abandonam os seus filhos, deixando-os entregues a si próprios e expostos aos riscos da sociedade actual, por certo não os amam, como pensam que amam!…

Miguel Ângelo Rodrigues