Uma nova vaga de retornados pode estar prestes a acontecer

0
201

A sociedade portuguesa do pós 25 de Abril, teve de assimilar no seu seio o retorno de quase 1 milhão de pessoas que foram forçadas a abandonar África. Como certamente alguns de nós se lembram, foi um fenómeno sociológico com forte impacto político, social e económico.

Após o choque inicial, pouco-a-pouco, a vida interrompida dessas pessoas, foi sendo reconstruida e a sua integração processou-se com mérito delas próprias, mas também pelo acolhimento que encontraram nas suas famílias e nas comunidades locais. Claro está que esse processo não foi isento de traumas sociais e, aqui ou ali, mesmo de tensões e conflitos. Mas foram ocorrências que no computo geral do fenómeno, se revelaram residuais.

O Portugal dos anos 70 beneficiou, a meu ver, do espírito empreendedor, do dinamismo social e económico e do arrojo de portugueses que foram capazes de ultrapassar o despojo e o desalojamento da sua zona de conforto. Reergueram-se, reorganizaram-se e acabaram por dar um sério contributo para a revitalização do nosso tecido económico e empresarial.

A nova vaga

A nova vaga que temo estar prestes a eclodir, terá uma dimensão menor, mas contornos psicossociais, porventura, bem mais complexos e até mais dramáticos. Desde os primórdios deste século, foi “vendida” aos portugueses, sobretudo àqueles que não encontravam respostas satisfatórias ás suas necessidades de realização pessoal e profissional, a ideia de que Angola, Moçambique e outros países lusófonos da CPLP, eram o “el dourado” onde os sonhos se poderiam cumprir. Isto, a par de outros convites à emigração…

Contudo, tal como veio a revelar a crua realidade, esses países, não só não estavam ainda claramente pacificados, como não beneficiavam de regimes políticos que pudessem ser considerados estados de Direito Democrático. Padecendo, alguns deles, de cleptocracias institucionalizadas que capturam a soberania do povo, os recursos naturais e as riquezas nacionais, e submetem o interesse coletivo público, a interesses privados de uma “elite” que controla o poder político, a economia e a vida das pessoas, incluindo a sua Liberdade.

Esta tragédia está a afetar, antes de mais, os povos desses países, submetendo-os a uma vida miserável, com carências de quase tudo.

Os milhares de portugueses que se encontram atualmente a trabalhar nalguns desses países, não escapam a esta conjuntura e, ainda que tenham possibilidades para adquirir bens que os nacionais não podem, a verdade é que não os há nas prateleiras das lojas, ou nas bancas dos mercados. Logo, o seu poder de compra é inútil.

Acresce assim, ao sacrifício de estar longe da família, dos amigos e do seu país, uma panóplia de privações que tornam ainda mais difícil a sua vida de emigrantes. Mas o problema mais agudo, é que muitos desses emigrantes, ou não recebem de todo os seus ordenados, ou quando conseguem recebê-los, vêm-se impedidos de enviar divisas para o estrangeiro, em consequência da grave crise financeira em que esses países estão mergulhados, quer por razões da conjuntura internacional, como por problemas estruturais internos.
Confrontados com a inutilidade do seu sacrifício, em certos casos tornado sofrimento, há hoje muitos milhares que equacionam o seu retorno a Portugal, depois de terem esgotado a esperança de que a situação melhor.

O retorno desses portugueses, em quase nada será comparável ao que aconteceu nos anos 70.

Os sentimentos dessas pessoas serão mais agudos, a revolta maior e as perspetivas de vida, mais estreitas ou quiçá mesmo nulas.

Estará o país preparado para mais este embate?

Estarão os governantes e políticos à altura de antecipar o problema e ter soluções pensadas, para minimizar as consequências de um eventual retorno em massa?

Estou certo que se esse retorno ocorrer, os seus efeitos irão sentir-se a vários níveis. Em primeiro lugar terá um inequívoco e imprevisível impacto social e económico. Mas também não tenho dúvidas que pode provocar, em próximos processos eleitorais, um autêntico vendaval político, baralhando de forma invulgar, o espetro político-partidário e dificultando as condições de governabilidade do país.

Sei bem que ninguém quer falar no assunto e que é melhor para os políticos, empurrar com a barriga para a frente ou varrer para debaixo do tapete, adiando a equação dos problemas. Mas seria mais útil e sensato, se os governantes, os políticos e a sociedade, encarassem o problema, sem ficar á espera e depois ir a reboque dos acontecimentos e do prejuízo…

A forma como as coisas estão a evoluir parece precipitar os acontecimentos, tornando inevitável um novo retorno à Pátria. Entretanto, o discurso oficial que ecoa por cá, remete-nos para a dialética ficcional resgatada à natureza da avestruz…

Victor Dias