O pintor do tempo

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Descobri Manoel de Oliveira pela mão da Professora Isabel Vaz Ponce de Leão, quando na Faculdade me proporcionou uma visualização crítica da obra “Vale Abraão”.

Na verdade já conhecia outras obras do cineasta, mas confesso que nesse dia, despertei para essa Arte de dar tempo ao tempo e deixar as imagens a respirar, para que nós, espectadores, possamos respirar com elas e beber todo o seu significado semiótico e estético.

Ficaram gravados na minha memória alguns dos mais extraordinários planos que o realizador sabia deixar a pairar na tela, todo o tempo do Mundo, que era preciso, para que a imagem tomasse conta de nós.

Mas não era apenas a imagem, cuja fotografia é de um sentido estético superior, também a movimentação dos actores e sobretudo a palavra falada, se exprimem, dando tempo e espaço para que o espectador tenha, igualmente, tempo para ler e discernir sobre o que se passa diante si, e quando surge a derradeira palavra escrita – Fim -, leve na mente ou no espírito, a essência da obra. Desiderato que nem sempre é possível, quando as imagens, os sons e os diálogos de certos filmes, produzidos pela indústria do entretenimento, se sucedem a um ritmo vertiginoso e estonteante, por vezes quase psicadélico, impróprio para epiléticos.

“Vale Abraão” e “O estranho caso de Angélica” são verdadeiramente duas obras-primas da 7ª Arte, nas quais o realizador Manoel de Oliveira se revela como um pintor do tempo, e um observador cuja visão, por meio da objectiva da sua câmara, consegue “penetrar” para além do visível. Simplesmente extraordinário.

No Cinema como na vida, Manoel de Oliveira teve sempre como divisa, aquela sabedoria de viver, que se traduz na velha expressão: -“…dar tempo ao tempo!…”. E foi o que logrou realizar, vivendo com intensidade e qualidade, os seus longos 106 anos.

Victor Dias

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