Opinião Arminda Moura: Em barca d´oiro no embarcadoiro

0
831

O lamento se esconde na máscara da dor e, no choro se corre nos labirintos dos papéis que percorrem as mãos de almas cansadas. Importantes estes papéis?
Talvez, talvez estes tragam a promessa do escondido nos lençóis mal tocados do sono que não vem. Contam-se as horas sem descanso das almas perdidas em devaneios na procura da bola de cristal que concede desejos.
Palavras, palavras, de que adianta falar se quem te ouve não escuta ecos pobres, o poder se acoita com os ricos e o pobre se governa no desgoverno dos senhores do poder dos doutores da perdição. A casa destes está farta mas para a tua nem um grão de arroz te dão, te cortam o que não tens e eles na grande reinação.

Olhar para trás não te leva ao navio que partiu no passado carregado de glórias. Portugal, tu já foste imperador no mundo e no teu embarcadoiro já atracou muita barca d´oiro! Hoje o trapo que te cobre está imundo, carregado de pobreza conspurcada no salário que tu pobre, já não tens… És galinha depenada que cobres muitos pintos disfarçados de gente de bem.
Palavras, palavras, quem as não dá? Talvez o mudo mas, o mudo ainda som tem! Se a boca não o diz, a alma clama no silêncio dos dias que correm nos pés da criança descalça na praia que não sabe quantos grãos ela tem. Será que estes grãos não são a soma dos risos, dos desejos e das esperanças em se ser alguém? Somar só as dificuldades na subtracção dos empregos que fogem entre os dedos. Estes empregos quem é que os cria, se este ele não vos o dá e só promete o que se reverte em adultero procriando-se artes do furto.

Porque sorris tu criança se teu prato nada tem? A tua inocência foge ao olhar a realidade do gavião velho que te rouba a liberdade, mas tu pequenino também queres as asas para voar.
Quebramos nossas asas porque depositamos a esperança no sono dos que dormem não arrependidos da ceifa diária de empregos. Se colocam no pedestal mais alto e nosso trono é perder mais um abono que não permite saciar a boca ao rebento que cresce em casa. Esse pequeno abono cobria o dente esburacado pelo rosário abarrotado de contas. E neste turbilhão de pesadelos que cobre a calçada e o nosso lar, perdemos nossas asas e sem elas não podemos voar.

Filhos, Portugal bem te queixas, mas produtividade é dos que permitem a fronteira aberta ao pedinte que procura neste país o que os que já cá nascem não o têm e ficando já estes com dívidas a ele. Caricato e verdadeiro, nascer para quê? É mais um devedor carente de atenção de um pai padrasto que não se envergonha de nos pôr a pedir. Pedir pedimos todos, mas nesta magreza se sustentam alguns bem gordos que não se envergonham de suas luxúrias.

Onde estão as asas que nos dão liberdade de sorrir ao pensar no futuro de nossos filhos. A liberdade se veste de preto escondendo a chave na cova aberta com pás de ouro. Para quê pás assim com tanto luxo se em muitas casas falta o pão?
Tu que não és velho e ainda tens muito a correr te amputam as pernas porque a tua idade pesa a valer.
Palavras, palavras… Se as palavras são de prata e o silêncio é de ouro, então usa-as não te coibindo de guardar o silêncio que sangra em teus ouvidos dos que nada ou pouco têm para viver.