Opinião Arminda Moura: Tesouros de Papel

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O crescer das tecnologias de informação acaba por nos dar a liberdade de escolha e muitas vezes deixamos de lado outros meios de divulgação de saber e prazer. Penso que as novidades das relações criadas virtualmente nos novos grupos sociais em rede são simples meios ilusórios de ocupação de tempo. Não quero com esta afirmação ferir sensibilidades e como tudo na vida é passível de concordância alguns aceitarão a minha ideia, outros não, democracias de pensamento… Mas indo de encontro com a minha primeira frase eu faço uma pergunta, o que é um livro? Talvez seja algo visível e palpável! Ou talvez seja um composto de folhas apensas umas nas outras formando um volume, ou volumes, transportável contendo uma impressão de um pensador literário, filósofo, político, ou de saber científico entre outros factos e ideologias possíveis. Ou talvez o livro seja um conjunto de páginas vazias de expressão para uns mas que a outros essas mesmas páginas lhes deliciam a mente com seus saberes, enredos, histórias e ilusões, levando-os a locais inatingíveis de outra forma.

Todos os dias visualizamos debaixo de um braço, num bolso, num saco, numa estante ou vitrina com vários tamanhos, feitios e cores. Qual o valor deles? Muito, pouco, nada, assim nós os quantificamos consoante o interesse de cada um. Para uns o seu valor é pessoal, para alguns profissionais e se para muitos tem valor académico, para outros é banal, nada vale.

Os livros são fieis depositários da história da humanidade e por muito que a história avance esta terá sempre o cunho de alguém, há sempre alguém preocupado em deixar a verdade impressa. E tal como eles também os sabedores de imaginário conseguem colocar numa folha de papel o que lhe vai na alma. Tanta palavra corre na mente dos fazedores de histórias que seus pensamentos encontram repouso nas páginas de livros perpetuados pelos tempos. Da história dos tempos e do testemunho de muitos podemos falar…
Sofia de Melo Brayner, grande poetisa portuguesa foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Como ela muitos outros poetas, novelistas, romancistas, cientistas, filósofos e figuras importantes do passado, e do presente, deram e dão o seu contributo na divulgação de seus saberes. Destacando-se entre eles um célebre poeta, considerada uma das maiores figuras da literatura e um dos grandes poetas do Ocidente, Camões. Luís de Vaz de Camões em seus versos relatou factos históricos das nossas naus e caravelas, contando feitos dos marujos portugueses que por mar se aventuraram. Ainda hoje estes acontecimentos não se perderam no tempo sendo transmitidos nos bancos de escola e se em pequenina vi um ou outro filme que relatava a vida de Camões mais tarde aprendi o significado dos poemas escritos por este grande poeta. Todos nós, que nos sentamos no liceu, bem ou mal, gostando ou não, abrimos os Lusíadas e nos debruçamos sobre o que lá estava escrito. E gostando ou não do que ouvimos algo fica sempre na nossa memória e nos dá orgulho saber dos feitos passados engrandecidos por grandes sábios do presente, e mesmo o menos presente sempre sabe dizer: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, …”.

Outro grande divulgador de erudição, Gil Vicente, pai do teatro português, com suas farsas retratou a sociedade da época e os podres suplantando os bons costumes esvaziados por ganâncias. Não podemos esquecer Fernando Pessoa, pessoa bem erudita. Este escritor nos deixou uma obra de grande valor sendo comparado a Camões e, tal como ele muitos outros doutos no passado, no presente e no futuro nos deixam seu testemunho. Deixando as nossas fronteiras e no rasto de outros peritos de escrita encontramos muitos pelo mundo fora. Bem há frente do seu tempo Júlio Verne e sua literatura científica e aventura previu o aparecimento dos submarinos, máquinas voadoras e a viagem à Lua. Qualquer coisa de sobrenatural e impensável no tempo de seus escritos mas bem reais nos dias de hoje, poucos de nós certamente nunca ouviram falar de “A volta ao mundo em 80 dias”. Se não lemos a obra deste escritor certamente a visionamos na tela de um cinema, na televisão em filme ou em desenhos animados e até quem sabe já foi lida por nós, aos nossos, em banda desenhada com heróis bem conhecido por nós. O passado se mostra no presente sob muitas formas.

Muito mais se poderia falar de grande obras que encheram e enchem os nossos pensamentos e nos leva a divagar em saberes, prazeres e aprofundar conhecimentos até então desconhecidos de nós. Os livros são bens consumíveis, banalizados ou não mas eternos, nos abrem caminhos desconhecidos e nos realizam em fantasias, sonhos, ambições, saberes, curiosidades e teimosias. Tesouros há disposição de todos, para tal basta recorrermos a uma biblioteca pública quando não queremos desembolsar algum dinheiro. Para muitos comprar um livro é comprar um luxo e hoje é um bem escasso e não essencial na actual crise financeira que vivemos.

Um livro se pode desfolhar com interesse, obrigação, amor ou paixão ou quem sabe manuseá-lo com estima, dor ou despreocupação. Há verdadeiras preciosidades esquecidas e escondidas de muitos de nós. Raro é o lar ou empresa que não tem alguns se não muitos livros. Alguns já passaram por mais que uma década ou gerações e estes por vezes se amotinam no meio de pertences sem interesse e ali se agastam esquecidos de todos. O melhor é reavivar estes mortos vivos e traze-los á luz de novo pelo simples facto de que quem tem tesouros destes devia em caso de não interesse doá-los para que outros os apreciem. Porque não os oferecer á nossa biblioteca municipal, Dr. José Vieira de Carvalho, local bem abrangente de toda a população maiata ou oferece-los então a outras instituições sociais e culturais?
O que não nos vem à mente quando os absorvemos no estudo ou no laser, é o porquê da criação de tanto saber. O homem não pára e seu intelecto também não, o maior marco do evoluir dos tempos se encontra reflectido e testemunhado por muitos em obras imortais. Falíveis? …É possível, nem tudo o que está escrito está correcto, mas nós cá estamos para apartar o trigo do joio.

Não por ignorância nossa mas Sócrates, filósofo grego, com seus ensinamentos filosóficos nos faz questionar a nossa forma de ser. Todos os dias aprendemos um pouco e esse pouco se junta ao saber aprendido anteriormente. Aqui não aplicamos a máxima que alguns utilizam dizendo, ”burro velho não aprende línguas” mas podemos dizer que nos tesouros de papel “aprendemos até morrer”.