Opinião Fernando Moreira de Sá: Até qualquer dia

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“Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos – e esse é assustador.

Será assim a morte, também, Cláudia?”, pergunta o narrador em “O Teu Deserto” de Miguel Sousa Tavares.
Não sei se será assim a morte. Aqueles que acreditam na Fé e que nela bebem os seus ensinamentos piamente sabem, ou acreditam saber, o que está além dela. Eu não sei. Confesso que nem quero saber, prefiro a surpresa, seja ela qual for nem que não seja nada. Apenas uma coisa sei: para quem aqui fica ela é, na maioria das vezes, sinónimo de perda e de sofrimento. Infelizmente, isso sei bem o que é. No fundo, sabemos todos.

A semana passada aconteceu. A morte chegou sem aviso e levou um conhecido meu. Foi uma surpresa estúpida. Quando olho para trás e recordo que dias antes estava eu e ele a brincar com um amigo comum, em pleno centro da cidade, por causa do futebol. Como eu, ele era um portista arrebatado e as alegrias dos últimos tempos serviam de ânimo e escape. A penalidade a favor do eterno rival de Lisboa e os erros eram motivo de saudável discussão e humor de fino recorte. Parece que o estou a ver, pendurado num cigarro acesso com o meu isqueiro azul, a enviar piadas enquanto repetia um tique característico e nos riamos os dois ao ver o ar atrapalhado do interlocutor encarnado.

Sempre o conheci acelerado, de um lado para o outro a trabalhar, a desenrascar tudo e todos – em minha casa sempre ouvi falar dele com profunda admiração pela forma como se empenhava na festa de Natal e conseguia arranjar patrocínios para os brinquedos a oferecer aos miúdos. Apenas o conheci nos últimos anos por força do trabalho, essa segunda família de todos nós nestes tempos de vertigem. Fui um espectador, como sempre procuro ser, um mero espectador atento que vê e procura perceber. Busco nos sinais a explicação para aquilo que observo e se dúvida tivesse sobre a importância da personalidade do Abílio Maia e a forma como tocava fundo no coração dos seus amigos, elas dissipavam-se ao ler a mensagem que os seus colegas de trabalho lhe dedicaram numa página do Jornal de Notícias: “Pessoas grandiosas são raras / E raras também são as que privam com elas / Tivemos o privilégio de partilhar as nossas vidas / Com o teu grandioso carácter / E ganhamos muito / És único – Os colegas e amigos do Departamento do Ambiente e Planeamento Territorial da Câmara Municipal da Maia.

Só alguém muito especial, mesmo muito especial, seria merecedor de tamanho elogio por parte dos seus amigos e colegas. Por isso julgo que não me enganei na interpretação dos sinais recepcionados. O Abílio Maia era mesmo especial.

Fernando Moreira de Sá