Opinião Francisco Vieira de Carvalho: Não deixem apagar a chama

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O Futebol Clube da Maia, vive hoje, o seu período mais difícil, depois de 56 anos de serviço à Maia e aos Maiatos. Muitos foram aqueles que ao longo destes longos anos deram o seu contributo ao clube, quer como atletas, quer como directores, quer com funcionários, quer com sócios ou mesmo como simples adeptos.
O clube teve um inicio de vida difícil, surgindo da união de dois clubes do centro da então Vila da Maia. Esse nascimento, teve um mentor, o então Presidente da Câmara Municipal, Dr. Carlos Pires Felgueiras, pessoa com visão, que rapidamente percebeu a necessidade de existir um clube forte, que elevasse o nome de Maia, e servisse de símbolo de uma terra e de uma gente.

Para esse nascimento, muito contribuíram os sócios fundadores, que com a sua determinação ergueram este grande clube. Dentro desse grupo de sócios, destacou-se desde o início o sócio nº1, e Primeiro Presidente da Direcção António Rebelo Monteiro. Este SENHOR, foi o PAI do Futebol Clube da Maia. Fez uma obra impar, quer desportiva, quer acima de tudo Infra-estrutural, com a construção do Campo de jogos e sede Social e a construção do Ringue, que originou o nascimento de várias modalidades. No meu tempo de presidente, tive o prazer e o privilégio de com ele privar, e com ele viver alguns momentos de glória, tenho pena de não ter conseguido levar o Maia á 1ª Divisão.

Muitos foram os Presidentes que passaram pelo clube, conheci alguns, trabalhei com outros. Entrei no clube pela Paixão incutida pelo meu Pai, mas pela mão do Dr. Lima Pereira, Presidente moderno e dinâmico, com um pensamento avançado, cheio de sonhos e ideias. Depois tive a Honra de fazer parte da direcção do Sr. Abílio de Sá Ribeiro, empresário dinâmico, homem humilde no trato, mas pragmático na acção.
Mais tarde, tive a honra de ser eleito presidente da Direcção, comigo foram eleitos muitos e bons maiatos, éramos quase todos muito novos, fomos chamados de escuteiros. Dessa equipe fizeram parte o João Vasconcelos, Fernando Herrera, Fernando Marinho, Fernando Carneiro, Vítor Sousa, José Beça, Alfredo Gonçalves, Joaquim Ferreira, Manuel Gens, Salvador Martins, Joaquim Marques, António Fernando, Joaquim José, entre outros. Todos eles me apoiaram imenso ao longo de quase 10 anos de lutas diárias, momentos de festa e de tristeza, com eles ri e com eles chorei. As reuniões de direcção eram sempre bem-dispostas, mesmo nas alturas difíceis, sobretudo em termos económicos. E lembro muito bem uma reunião de direcção, um ano e meio antes da minha saída, onde toda a direcção fez questão de pôr por escrito o montante por mim emprestado, sem eu ter exigido tal documento de divida, foi para mim um acto de reconhecimento e de solidariedade pelo meu empenho. Durante esse período fui eleito membro da Direcção da Liga de Futebol Profissional, durante 8 anos, e ainda, membro do Conselho superior da Associação do Porto. Foram 10 anos, que passaram como um foguete, nesse mesmo período, casei, fui Pai por duas vezes, e tive o desgosto de perder o meu avô, e depois o meu Pai.

Organização

Esses 10 anos, coincidiram com os melhores anos do clube, nomeadamente com a conquista do título de campeão da 2ª divisão e consequente subida á Liga de Honra, e com a permanência consecutiva na Liga de Honra. Lembro vários jogos fora, como em Espinho, onde levamos 2.500 adeptos, ou nas Antas, onde levamos 3.000 adeptos. E jogos em casa, quer na altura da subida á Liga de Honra, quer na altura da disputa da subida á super Liga, onde tivemos muitos jogos com quase 15.000 adeptos.
Dentro da direcção, os vice-presidentes foram excepcionais, o Vítor Sousa liderou o Futebol Juvenil, e foi com ele que o Clube criou a escola de futebol, e foi com ele que as camadas jovens ficaram autónomas financeiramente. O Manuel Gens, organizou contabilisticamente o clube, produzindo orçamentos e relatórios de contas de enorme qualidade técnica, e incrementando uma nova atitude mais empresarial ao clube.
O António Fernando, organizou o departamento comercial, que coincidiu com a entrada do Carlos Bartolo para esse sector. O António Fernando, juntamente com o Joaquim José e comigo, era responsável pelos movimentos financeiros do clube junto dos bancos, bem como da Assinatura dos contratos de trabalho com os atletas. O Joaquim José, como responsável da equipe sénior e dos movimentos financeiros, era o director mais presente, lidando juntamente comigo, com a equipe sénior. Era apoiado pelo Jorge Brito.

O Presidente da Assembleia-Geral, o Sr. António Espírito Santo Monteiro, é para mim e penso que para todos os actuais sócios do Clube, o nosso maior símbolo. Homem de grande carácter, de uma coluna vertebral sólida e inflexível, foi depois da morte do meu Pai, o meu grande suporte anímico, sempre me apoiou como ninguém, sempre, lutando ao meu lado, sofrendo comigo. Foi um grande atleta do nosso clube, foi um grande presidente, é um grande sócio, e é um HOMEM enorme.

Por último, o meu Pai, Prof. Dr. José Vieira de Carvalho. O meu mentor, o meu mestre, o meu melhor amigo, e o sócio do clube mais difícil de dialogar. A ânsia da vitória, a vontade do sucesso, o sonho da subida, o orgulho em ser Maiato de corpo inteiro. Mal o árbitro apitava para o fim do jogo, o meu telemóvel tocava de imediato, era sempre ele, discutia os pormenores, e criticava ou apoiava, consoante os nossos níveis de confiança. Era fantástica a sua psicologia de liderança. Como eu hoje o compreendo. Todos os dias penso nele e nos seus ensinamentos, e todos os dias me esforço para ser digno do seu nome, do seu legado, da sua memória, e dos seus sonhos e dos projectos para o futuro.
Após o ano de 2002, e com a morte prematura do meu Pai, a Câmara Municipal da Maia, mudou de atitude em relação ao clube. Talvez fruto da nova forma de ver o apoio ao desporto e ao associativismo, talvez por questões financeiras, talvez por uma questão de gostos ou vontades, o que é certo é que os apoios da Câmara Municipal, foram-se reduzindo e adiando, pese embora muitas promessas de mais e melhores apoios.

Queda

Na pratica, a Câmara Municipal da Maia, não cumpriu com o prometido em 2002, e essa promessa passava por um esforço da autarquia em não baixar o apoio anual, até final do mandato, ou seja final de 2005, e ainda a atribuição de um subsidio extra, já combinado no inicio de 2002, possibilitando assim, o saneamento financeiro do clube. E depois, em finais de 2005, face á situação financeira da Câmara municipal, bem como a sua vontade de apoiar ou não um clube desta envergadura, o clube e a autarquia iriam encontrar uma nova forma de apoio, que poderia passar pela redução do apoio financeiro anual, e a descida do clube a uma divisão compatível com o seu orçamento, ou pelo contrário. Para minha decepção, e para o mal do Futebol Clube da Maia, a Câmara não só não cumpriu com o prometido, como baixou os apoios, e mesmo esses apoios não foram liquidados, devendo neste momento a Câmara ao clube o momento de quase 900.000€.

Desde a minha saída até á data, o clube caiu numa situação dramática, a nível desportivo, da Liga de Honra, até á não competição. Com o futebol juvenil, a passar de 400 atletas, para 50 atletas. E a nível financeiro, a ter um crédito não cobrado de quase 1.400.000€, que asfixiou completamente o clube, e a um passivo, que penso não terá baixado muito. A estes factos, acresce que á revelia dos sócios do Futebol Clube da Maia, os seus directores formaram um novo clube, passando para esse novo clube grande parte dos activos. Acresce ainda a não apresentação de contas, prometidas para fins de 2006, e posteriormente prometidas para fins de 2008. E mais importante a não convocação de qualquer Assembleia-Geral, nos últimos 2 anos, ainda mais face aos acontecimentos que marcaram a suspensão da equipe sénior por 2 anos, não tendo sido sequer essa suspensão contestada.

Assim, foram obrigados os sócios do clube, a marcar uma Assembleia -geral Extraordinária, facto este inédito no clube, e mesmo assim, a actual Comissão Administrativa, não respeitou a vontade dos sócios, convocando a Assembleia, com 2 pontos completamente despropositados. A vontade dos 90 sócios que assinaram o pedido da Assembleia-geral Extraordinária, não é contra a pessoa A ou B, ou contra esta ou aquela entidade, é apenas e só para tentar salvar o Futebol Clube da Maia, para tentar salvar o pouco que resta deste grande clube. Assim, hoje a Assembleia-geral, será vital para o futuro do nosso Maia
Acima de tudo não deixem apagar a CHAMA do Futebol Clube da Maia.

Ex-Presidente da Direcção do Futebol Clube da Maia