Opinião José Augusto Maia Marques: Ignorância ou má-fé combatem-se esclarecendo

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Publicou este Jornal no seu número de 23 de Abril passado uma notícia que dava conta da formação de um nóvel clube no nosso Concelho com, ao que parece, finalidades culturais, aberto a pessoas com curso superior. A notícia em si mesma revela ou uma profunda ignorância, o que é grave, ou uma forte dose de má fé, o que é ainda mais grave. Mas atenção, nada disto acontece por parte da Jornalista, profissional competente e que muito prezo, mas sim por parte de quem lhe forneceu a matéria, que aliás ela prudentemente coloca entre aspas.

Quem, vindo de uma outra realidade, lesse a notícia, ficaria com a ideia que em termos de certas áreas da Cultura, nomeadamente o Património Cultural, nada está feito, tudo está por fazer, e vem agora a onda salvadora que tudo vai estudar, acautelar e publicar. O município não fez nada, a sociedade civil não fez nada, chegaram os super-herois que vão tratar dos coitadinhos dos maiatos ignorantes e abúlicos. Ora só por si esta parte da questão é, no mínimo ridícula. Não comento sequer a dicotomia entre património cultural e material, pois não sei de que património material se fala, já que para mim, a maior parte do património material é, obviamente, património cultural. Falo, isso sim, de alguns dos aspectos que são utilizados como exemplo.

Comecemos pelos jogos tradicionais. Há, na Maia, muitas associações que praticam vários jogos tradicionais. Falo de uma que conheço bem – o Grupo Regional de Moreira da Maia. Em vários certames eles apresentam muitos desses jogos, brinquedos e divertimentos e têm uma impressionante panóplia de réplicas (e de alguns originais), de brinquedos tradicionais, desde o pião à bicicleta de pau, na maior parte dos casos obra do Sr. António Pereira, artesão devotado à nossa cultura popular. Tudo o que de mais importante temos na Terra da Maia nesse domínio o Grupo Regional de Moreira preserva, conhece e pratica. Mas o Museu de História e Etnologia tem também recolha feita nesse domínio. Que aliás já foi posta em prática, por exemplo, nas comemorações do Dia Internacional da Família no Parque de Avioso. Há, portanto, muita coisa feita. Mas adiante.

Quanto ao namorar à carreira, não só é tema conhecido, como estudado (há trabalhos publicados, nomeadamente o de Manuel Gens) e, a fonte é a mesma, a Dª. Lucília Santos do Grupo Regional de Moreira já várias vezes materializou o «namoro à carreira», até no contexto de congressos internacionais organizados pela Câmara Municipal. Conhece-se, estudou-se, está vivo sempre que quisermos. Está portanto feito o mais importante.

Mas o disparate maior é a alusão aos Santeiros. Este tema tem, entre vários outros, três excelentes estudos. O de Carlos de Passos, de 1957, publicado na revista «Lusíada», o de José Manuel Tedim, filho e neto de Santeiros, de 1978, publicado na «Bracara Augusta» e o de Armando Tavares, de 2000, publicado nas «Actas do Congresso de Cultura Popular». Mas, cúmulo dos cúmulos, o tema foi objecto de um estudo profundo de Sérgio Sá, ele próprio artista plástico e descendente de Santeiros, que conduziu à elaboração da sua Tese de Mestrado, publicada em 2002 em excelente livro intitulado «Santeiros da Maia no último ciclo da escultura cristã em Portugal». Três trabalhos científicos e uma tese. É obra. Acresce que o Município tem pensado um pólo museológico sobre o tema, que só não avançou porque o local apropriado não está ainda capaz de o receber. Mas há material e recolha.

Então o que se vai fazer mais com os Santeiros? Não há estudos? Não há santeiros a esculpir?
Sejamos sérios. Há muito que fazer, e há espaço para todos. Mas não tratemos o assunto pela rama, ou não nos propunhamos agora descobrir a roda, que isso já os Sumérios fizeram há vários milénios.
Espero sinceramente que não se vá ainda por cima solicitar à Câmara Municipal ajudas para a publicação de um estudo sobre um tema que já está estudado e publicado.
Ignorância ou má fé combatem-se esclarecendo. Aqui está o esclarecimento.