Opiniao Paulo Ribeiro e Ricardo Salabert: O Socialismo no combate à Crise

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Nos últimos anos tem surgido um conjunto importante de movimentos sociais de trabalhadoras e trabalhadores precários. Assumem desde as lutas por um estatuto que salvaguarde os e as intermitentes das artes de espectáculo, à extinção dos falsos recibos verdes, passando pela crítica activa dos modelos assentes na precarização da vida das e dos assalariados. O que têm em comum? Todos surgiram após o mais feroz ataque aos direitos laborais, iniciado por Bagão Félix, continuado por Vieira da Silva e assegurado por Helena André. Assim, lentamente, o PS tem vindo a mostrar a sua verdadeira ideologia. Não é o socialismo na sua definição global, mas um socialismo “à portuguesa”. Não é carne nem é peixe, é mais um socialismo invertebrado que apelidam de moderado. É a imagem dessa “grande” família política, a social-democracia, que vive em perpétua alternância.

Esta família, não só tem promovido o retalhar dos direitos laborais conquistados pela coerência da luta sindical dos inícios da liberdade, como ao restringir da actuação dos sindicatos e seus activistas. Tem, aliás, dado consentimento legislativo para o assédio moral dentro das empresas; as mesmas em que se aplicam horários de trabalho desregulados e promotores da alienação das e dos nossos colegas de trabalho, optimizando a sua transformação em seres autómatos.

Estamos perante um gravíssimo retrocesso civilizacional, impulsionado pelo descrédito que se faz passar do movimento sindical clássico. Foi perante este cenário, que os vários movimentos sociais que foram surgindo não provocaram uma, talvez expectável, atomização das lutas laborais. Pelo contrário, com a sua corporização, várias trabalhadoras e trabalhadores conseguiram voltar a sentir a emergência da rua e da luta popular, aumentando a massa crítica face a políticas anti-sociais.
Essas políticas são a face da castração do Estado que vai desde as privatizações já feitas, quase todas elas de sectores estruturantes na economia e sobre o pretexto da dívida pública, até às que estão iminentes neste PEC e noutras já em projecto com a criação de Empresas Públicas como o Parque Escolar ou a Águas de Portugal. Às privatizações, somam-se os ataques a quem trabalha e as novas regras para o apoio a desempregadas e reformados.

Não querendo bater muito mais na mesma tecla, até porque é do conhecimento de todos a “obra” do PS socrático e soarista, é nossa opinião que um partido que se diz Socialista e se resume a acenar com computadores Magalhães e RSI’s não contribui para um equilíbrio mínimo exigido num país que elegeu o Socialismo para o Governo (ou nos esquecemos da definição de socialista, ou a propaganda governamental tem grandes capacidades de ilusionismo).

O maior perigo desta confusão ideológica são as suas graves consequências futuras. Pouco a pouco, a própria esquerda moderada vai-se adaptando ao liberalismo como a única forma económica que domina, não só a nossa carteira, mas os nossos deveres e os nossos direitos. Um modo de vida direccionado apenas para o trabalho incondicional, forçado pela falta de oportunidades e pela crescente desigualdade social. Um pseudo-socialismo que se limita a entreter com questões sociológicas como o “casamento gay” para prosseguir políticas neo-liberais (com a desculpa do défice), deturpando o próprio conceito de igualdade.
Recuando às Legislativas de 2005, vemos que esta ala socrática foi a pioneira do travestismo de que já acusou outros. As promessas que anunciaram e as medidas que tomaram mostraram-no. O sensacionalismo político é a única arma política. Assim o provaram, também, as Legislativas de 2009. As consequências, essas, vão passando despercebidas. Passam despercebidas as nomeações políticas para administrarem empresas públicas e público-privadas com rendimentos milionários. Empresas essas que possuem monopólios de mercado (quanto custa ser-se um bom gestor sem concorrência?). Passam despercebidas amnistias a empresas que fugiram ao fisco, através de off-shores, durante anos. Passa despercebido o receio deste Executivo pela abolição do sigilo bancário ou as adjudicações directas. Notavelmente, passam e passaram despercebidas as longas promiscuidades entre o sector público e o privado.

Tudo isto, é o que motiva os e as activistas dos diversos movimentos sociais, apesar das suas diferenças, das suas especificidades. É o desejo, a exigência de uma sociedade assente na justiça e na igualdade. Saem à rua, porque não aceitam que lhes/nos sejam impostos sacrifícios que apenas beneficiam as elites – os grandes interesses económicos – e que, no horizonte, apenas permitem vislumbrar demagogias.
O papel de um partido que não renega a sua ideologia, também está nestas lutas, junto a todas e todos os cidadãos; e estamos aqui, porque juntos e juntas, somos mais fortes; e só unidos, nos nossos locais de trabalho – nas nossas escolas, cozinhas e call-centres; nos nossos hóteis, shoppings e escritórios; nas nossas obras, autarquias – e nas ruas, somos consequentes na manifestação do nosso descontentamento, na demonstração da garra de saber o que queremos e do que não desistiremos – a devolução das nossas vidas.

Concelhia do Bloco de Esquerda da Maia