Opinião Victor Dias: A dieta mental é tão precisa como a física…

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Quando o prof. Andrew Oitke publicou o seu livro “Mental Obesity”, ateou uma acesa polémica, em diversos sectores das sociedades ocidentais.
O catedrático de Antropologia na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, é responsável por ter gerado um amplo debate na comunidade científica, nos média e na sociedade em geral, espoletado pelo seu conceito de “obesidade mental”, em que as gorduras que contribuem para esse efeito são reflexo de maus hábitos alimentares do intelecto e do espírito que na sua opinião constitui um dos mais graves problemas das sociedades modernas.

Hoje vivemos dominados por uma espécie de ditadura do físico, correndo freneticamente do trabalho para o ginásio, na ânsia de queimar umas quantas gramas de gordura em excesso e tonificar a musculatura, para depois chegar a casa, exaustos e famintos, e afundar no sofá consumindo toda a espécie de gordura mental.
É óbvio que praticar exercício físico faz bem à saúde, sobretudo se for vigiado por um médico e se a nossa aposta privilegiar as caminhadas ao ar livre, com regra, regularidade e sem loucuras.
Para o Antropólogo, o excesso de gordura mental provoca um tipo de obesidade tão ou mais nocivo para a saúde e bem-estar das pessoas, do que a obesidade física. O Prof. Oitke sustenta que: -“…a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono”.

As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.
Os cozinheiros desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.
O problema central está na família e na escola. Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.
Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas…
Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada”.

Num artigo publicado pelo Prof. Dr. João César das Neves, docente universitário responsável por uma recensão crítica muito bem elaborada sobre o livro do Prof. Oitke, ele considera que um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, é aquele que o autor intitulou de “Os Abutres”, e onde afirma que: – ”… o jornalista alimenta-se, hoje, quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.
Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.”
A implacável análise do Prof. Oitke prossegue lancinante: – “…o conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.
Todos acham que Saddam era mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.”
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.
“Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.
A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.
É só uma questão de obesidade mental.
O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de dieta mental”.

Se reflectirmos bem nestas verdades, porventura, questionáveis e passíveis de contraditório, não deixaremos nunca de pensar no excesso de ingestão de gordura mental a que estão expostas as nossas crianças, adolescentes e jovens de menor idade, actualmente grandes consumidores de internet, televisão, vídeo jogos, sem qualquer controlo de tempo, de qualidade e sem critério ético ou moral, muitas vezes, ao sabor da desresponsabilização dos pais e educadores, expondo-se desprotegidos, a toda a sorte de influências negativas e abusos, e pondo-se, inocentemente, a jeito de criminosos sem rosto que se escondem por detrás de um anonimato perigoso ou de uma falsa identidade que os deixa em roda livre, para perpetrar os mais engenhosos, inovadores e hediondos crimes cujas consequências não são virtuais.
É preciso despertar para os riscos mais profundos de uma “obesidade mental” que nos retira inteligência, discernimento, capacidade de concentração e nos torna mais ignorantes e vulneráveis, mas convencidos do contrário…

Temos todos de nos questionar sobre o lixo intelectual que inunda as nossas cabeças, tornando difícil a separação do que é informação útil e relevante para a nossa vida, deixando-nos mergulhados num mar de imagens, conversas cruzadas, palavras soltas com ou sem nexo, música e ruído, transformando a tarefa cerebral de seleccionar o que deve ser guardado na memória recente, para uso imediato e posterior reciclagem, ou na memória futura, numa missão hercúlea, não raras vezes, mesmo impossível.
A leitura solitária, o silêncio interior , a audição de Música, ao vivo ou em ambiente apropriado, a conversa tranquila com os amigos, a brincadeira das crianças ao ar livre, enfim, uma vida mais pacata e livre da poluição mental, é fonte de bem estar e saúde mental.