Opinião: Victor Dias – Cavaco em Carcavelos

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O esforço do novo líder do PSD, com vista a congregar as diferentes pessoas afectas às diversas sensibilidades, foi notável e, assim espero, reflectiu uma vontade sincera, de unir o partido e reforçar a coesão interna, na pluralidade de opiniões e formas de conceber a construção de uma alternativa ao Governo do PS, tão cedo quanto possível.

No essencial, os dois discursos de Pedro Passos Coelho apresentaram propostas, a meu ver, muito interessantes e válidas, para reconquistar a confiança dos portugueses, inserindo matérias novas e atribuindo uma nova ordem às suas prioridades, provavelmente porque entendeu que quem quer unir, tem de saber conciliar o ideal com o necessário, para fazer o possível, imperioso e urgente, antes que seja tarde e se continuarmos com este desgoverno socialista, qualquer dia pode mesmo ser tarde de mais. O PSD não deve ter pressa de assumir o poder, mas não pode ignorar que o tempo político, hoje urge e Portugal não pode esperar até bater no fundo.

Julgo que estarei a interpretar o sentimento de muitos social democratas e portugueses também, que este é o tempo de Passos Coelho e como tal, é preciso dar-lhe espaço e ajudá-lo a preparar o futuro, quanto mais não seja, concedendo-lhe o benefício da dúvida, mas sem reservas e, sobretudo, sem boicotes, não minando o terreno onde ele tem de começar a erguer as fundações do edifício do poder governativo que vai ter de reerguer o país.

O Ausente Presente

Já durante a campanha eleitoral interna para a eleição do Presidente do PSD, Cavaco Silva tinha estado, no meu entender demasiadamente, presente no discurso dos vários candidatos, ocupando partes importantes do seu tempo de antena.

Em Carcavelos a saga continuou, com um Partido em enormes dificuldades para descolar da presença ausente do seu antigo líder, agora inquilino do Palácio de Belém.

Cavaco Silva já demonstrou que tem a sua própria agenda e só obedece aos seus próprios ditames e “timings” políticos que, obviamente, não são, nem tinham que ser, os do PSD.

As declarações do Presidente da República após a eleição do novo líder do PSD, Pedro Passos Coelho, respondendo a uma jornalista sobre esse facto, foram completamente esclarecedoras e demonstraram o estado de espírito de Cavaco Silva, perante a eleição, por uma percentagem esmagadora e inequívoca, do líder que ele, porventura, não desejava. O seu excesso, foi ao ponto de proferir declarações, na senda do discurso de Manuela Ferreira Leite, certamente com o objectivo de condicionar a orientação estratégica do novo líder, acenando com a necessidade de preservar o PEC de Sócrates, de não estragar a estabilidade política, amedrontando com o FMI, as agências de “rating” e os mercados internacionais…

Todos sabemos, sem precisarmos de ser analistas profissionais, que até às presidenciais e com um jeitinho, até para além delas, seria muito bom para Cavaco que Sócrates continuasse em S. Bento. É preciso continuar a vender a lógica de que o povo não gosta de pôr os ovos todos no mesmo cesto, e assim sendo, se em Janeiro de 2011, já tivéssemos um Governo PSD, podia o povo tecê-las e repartir os ovos, escolhendo para Belém, um inquilino de outra área política. Talvez esta lógica explique bem porque razão Cavaco Silva tem sido o maior e melhor aliado de Sócrates, dando corpo a uma das maiores ironias do destino.

Numa tirada de grande inteligência e sentido de estratégia, Pedro Passos Coelho que já demonstrou que a sua agenda é a do PSD, afirmou com toda a clareza que, caso Cavaco se recandidate, o partido apoiará e empenhar-se-á na sua reeleição, assumindo que ele será o candidato natural do PSD

Deste modo, Passos Coelho deixa Cavaco em dificuldades para continuar a desferir as suas alfinetadelas no PSD e no seu novo Presidente, porque se ele persistir, ainda que tenha a certeza absoluta que o seu antigo partido, não mudará a sua posição oficial, sabe no entanto que não haverá norma de rolha alguma que impeça os militantes e simpatizantes do PSD de expressarem nas urnas, a veemência da sua indignação.

O sentido de Estado obriga por certo a um posicionamento equidistante, comedido e assertivo, expresso num discurso sensato, claro e pacificador, por forma a não gerar perturbação social e preservar a estabilidade política. Todos compreendemos estas exigências que se colocam ao Chefe do Estado, mas já fica difícil de entender que ele seja condescendente com quem tem as maiores responsabilidades, porque está no poder e a governar, e condicionador para quem tem como missão cumprir a Democracia, fazendo oposição.

Já esta semana, Cavaco Silva, quando instado a pronunciar-se sobre a proposta de Passos coelho, para revisão do texto constitucional, remeteu-se ao silêncio, regressando ao seu melhor estilo.

Compreendo e até aprecio bastante, o exercício do direito à ponderação que levou o candidato à liderança do PSD, a passar do politicamente ousado, para um tom, porventura mais moderado, do líder eleito que assumiu claramente o registo do ppoliticamente correcto, para já, sobretudo, com Belém.

Ou muito me engano, ou o Presidente Cavaco Silva vai fazer um resto de mandato exemplar, procurando reconquistar o seu eleitorado, pelo que será de esperar um roteiro cheio de sorrisos, esperança, análises, comentários e reparos mais enigmáticos, ou seja, nem cor de rosa, nem laranja.

Da minha parte, nenhum político me verá nas suas fileiras a fazer número, contando para a massa hipodérmica dos “ismos” ou dos “istas”. Farei as minhas escolhas em função dos valores, das ideias, das provas dadas e da forma como me senti, ou não, representado por quem recebeu o meu voto. Será com base nesse meu juízo que escolherei o meu candidato à Presidência da República, facto que me leva a colocar nas mãos de Cavaco Silva, para os próximos meses, a responsabilidade de recuperar a minha confiança. Mas aviso já que o Sr. Professor vai ter de soar as estopinhas.

De todo o modo, penso que o PSD está a viver um tempo novo que já contagiou o país e estou confiante no novo fôlego com que o PSD saiu de Carcavelos e também estou certo que Cavaco Silva não vai arriscar mais e vai deixar Pedro Passos Coelho trabalhar…