Opinião: Victor Dias – Clarificação inequívoca

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Finalmente o PSD tem um líder que reúne a claríssima vontade da maioria dos militantes, facto que reforça a sua legitimidade e por certo vai permitir-lhe levar a cabo, sem contestação e com serenidade, a reorganização interna que o partido necessita, para que a oposição ao Governo de Sócrates e do PS, passe a ser mais e melhor coordenada e a uma só voz. Agora temos um líder forte e amplamente desejado no seio do partido, resta trabalhar para que o mesmo aconteça em todo o país.
Este é o tempo de Pedro Passos Coelho, é o tempo de dar tempo ao tempo, embora saibamos todos que o tempo urge, e o país não pode esperar.
É claro que não vai ser nada fácil, mas o PSD tem de dar provas de que está unido em torno do seu líder, sinalizando aos portugueses que é mais importante o que une e responsabiliza os seus dirigentes e militantes, do que as divergências de interpretação ideológica e diversidade de soluções pragmáticas que cada cabeça concebe.
Espero que no próximo congresso, Passos Coelho mantenha o que disse e proponha a revogação da norma da rolha, afirmando com toda a clareza que a Liberdade de opinião é para si, um valor inamovível do ideário do PSD. Se o fizer, o novo líder, terá sempre moral, para exigir a todos os militantes que discordarem da sua liderança, que o façam com coragem, frontalidade e lealdade, ou seja, que o confrontem nos órgãos em que tenham assento, ou mesmo que o contestem publicamente. Não ajudei a eleger Pedro Passos Coelho, mas serei um militante do PSD leal e solidário, mas sempre indisciplinado quando a minha consciência a tal me obrigar, na consideração de que apenas ela me vincula. No entanto asseguro a garantia de que se alguma vez discordar e estiver do lado oposto do líder e dos órgãos do partido, manifestarei sempre a minha discordância, com elevação, sem misturar apreciações de carácter pessoal concreto, reservando a minha opinião, ao domínio estritamente político e de uma forma tão clara e objectiva que há-de permitir sem equívocos, o exercício saudável do contraditório.
Porém, estou convicto que se a norma da rolha persistir, é bem provável que certo baronato, caso se sinta incomodado e ameaçado nos seus feudos, se comece a movimentar sub-repticiamente, desferindo na sombra, golpes que a pouco e pouco, podem desgastar qualquer pessoa, especialmente se essa pessoa estiver exposta a uma visibilidade pública e a um escrutínio constante dos meios de comunicação social, que valorizam extraordinariamente todos os sinais aos quais se podem agarrar para especular e fabricar notícias. Só a Liberdade interna previne eficazmente esse jogo de sombras.

Crise…sim, mas política…

O PSD por inteiro, do líder ao mais singelo militante, como eu, tem de estar preparado para resolver a actual crise política, porque é aí que está o problema de Portugal.
O PSD tem de ter a coragem de dizer, ou melhor explicar, aos portugueses que a crise em que estamos mergulhados e que vai requerer muitos sacrifícios, mormente da classe média e média baixa, não é somente uma crise económica e consequentemente social, mas é principalmente uma grave crise política.
Uma crise política que o Presidente Cavaco Silva não deseja que ecluda, por razões óbvias para ele, e que José Sócrates quer manter em banho-maria, até que lhe dê jeito entornar o caldo e provocar eleições, caso as sondagens lhe sejam maioritariamente favoráveis.
É claro que o problema não se pode analisar desta forma tão simplista, mas na verdade, todas as pessoas de bom senso e que têm uma noção minimamente esclarecida sobre as causas desta crise política, já há muito compreenderam que com estes governantes nunca conseguiremos atacar a raíz dos nossos maiores problemas estruturais e levar a cabo profundas reformas políticas, incluindo é claro, a reforma do próprio Estado.
Os ministros podem e devem ser técnicos de excelência nas áreas das suas pastas, mas é muito mais importante que sejam excelentes decisores políticos, corajosos, sensatos, determinados e persistentes. E se aos ministros devemos exigir estas qualidades, ao Chefe do Governo, temos de exigir que saiba mandar, que não deixe ministros em roda livre, que não se afaste da realidade, que tenha visão de futuro e não governe para as próximas eleições.
Tenho muitas vezes a impressão que os políticos, em todo o espectro partidário, uns mais outros menos, têm receio de chamar os bois pelos nomes e admitir que existe uma crise política que urge resolver.
Não me custa aceitar que alguns leitores me vejam como um exagerado ou até um radical, mas enfim, não me revejo nada nessa pele, pelo contrário, julgo ser um optimista moderado que, precisamente por isso, entende que é melhor para Portugal, mudar de vida, de parlamento, de constituição e sobretudo, mudar de Governo e quanto antes melhor.
A manter-se a actual situação política no país, continuará o desgoverno nas finanças públicas, o desvario nas administrações participadas pelo Estado, o desnorte quanto aos verdadeiros e necessários desígnios nacionais e a credibilidade interna e externa da nossa República, que continua pelas ruas da amargura, por causa da incompetência e incúria de quem exerce os mais altos cargos da Nação.
Por fim, julgo que o PSD e em particular o líder, deve deixar de dar para o peditório dos sucessivos escândalos em que o Primeiro-ministro está envolvido, deixando essa colecta para o Poder Judicial, esperando pacientemente, muito pacientemente mesmo, que os tribunais cumpram a sua função. Também aí, a meu ver, é tempo de voltar a página e concentrar energias na resolução da crise política e assumir de uma vez por todas, uma agenda própria.
Temos todos, militantes e simpatizantes do PSD e cidadãos em geral, de procurar minimizar as nossas diferenças de pensamento político, concentrando a nossa máxima energia no essencial e inadiável. Quero com isto significar, que é preciso tocar a rebate, para fazermos das fraquezas forças e trabalhar afincadamente na recuperação de Portugal. Uma recuperação que não pode restringir-se apenas ao domínio da economia, mas que tem de acontecer sobretudo, na restauração de valores éticos e morais, na redefinição da função e missão do Estado, na modernização da Constituição da República e na elaboração de um estatuto aplicável a todos os titulares de cargos públicos que estabeleça um quadro rigoroso de atribuições, competências e responsabilidades civis e criminais, prevendo o abandono imediato e obrigatório da titularidade dos seus cargos, sempre que o envolvimento em processos judiciais atinja um determinado índice de suspeita. Esta medida é absolutamente imprescindível para que as pessoas voltem a acreditar no regime democrático e a confiar nos titulares dos seus órgãos políticos, judiciais e administrativos.
Por fim resta-me afirmar que tenho esperança de que Pedro Passos Coelho saiba o que fazer com a confortabilíssima maioria que o obteve e que, sobretudo, faça bem o que tem a fazer, primeiro no PSD e depois no país.