Opinião Victor Dias: Cultivar a Esperança

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O caminho mais fácil, nestes dias difíceis que atravessamos, é sempre o da crítica acutilante, do carpir das mágoas, do mergulho na depressão social, do sacudir a água do capote e enjeitar as responsabilidades próprias.
É certo que não podemos perder a capacidade de análise e de crítica, para em consciência e com seriedade intelectual podermos formular as nossas opiniões, na certeza de que esse exercício individual e colectivo é vital à qualidade da nossa vida pública e, em particular, da nossa vida democrática.
Contudo, a nossa acção e posicionamento na sociedade, não deve e, sobretudo, não pode deixar que percamos a Esperança. Para que isso aconteça, para que possamos manter intacta e, se possível até, reforçar a nossa Esperança, temos de nos concentrar em tudo o que nos pode acalentar esse sentimento imprescindível à vida.

A meu ver, a Esperança, não é apenas um sentimento fundado na crença que depositamos, naquilo que temos para nós de mais ou menos Sagrado, embora também seja isso, ela toma forma no nosso coração, projectada pela confiança que nos advém do facto concreto de acreditarmos nos nossos filhos, nas pessoas de boa vontade que nos rodeiam, nos líderes sérios e honestos que nos governam e, por fim, até em nós próprios, apesar dos momentos de incerteza e fraqueza que por vezes nos atormentam.
A perda da Esperança está normalmente associada ao medo, não raras vezes, ao receio de perder ou de sair da zona de conforto onde estamos comodamente instalados, talvez porque não estamos dispostos a enfrentar a realidade, a arregaçar as mangas e, pelo menos, tentar vencer os desafios.
A sociedade portuguesa vive uma situação que reclama de todos, um esforço conjunto, alicerçado na solidariedade concreta e partilhada em função das posses de cada um, de forma a que a Esperança não se torne numa palavra vã.

Perante as situações de emergência social, de pobreza extrema que vão surgindo aqui ou ali, todos temos de nos mobilizar para levar às pessoas que precisam de nós, uma palavra de Esperança, com atitudes consequentes e concretas que as ajudem, efectivamente, a ultrapassar as suas dificuldades e a satisfazer as suas necessidades básicas, a encontrar uma casa, porventura de renda mais económica ou de carácter social e ao alcance das suas parcas possibilidades, a encontrar um trabalho e, quando for necessário, a não perder a dignidade humana.

Não pensemos que se o fizermos seremos bonzinhos e a sociedade nos verá como filantropos ou credores do reconhecimento social ou de honrarias, pensemos antes que o faremos por nós próprios e pelo respeito que também nos merece a nossa própria condição humana.
A Esperança é um bem espiritual que nos impede de perder a alegria de viver e que nos ajuda a valorizar tudo quanto é essencial na vida, em detrimento do acessório, fútil e superficial. É com a Esperança que cada um tem em si próprio que por mais negro que o futuro possa parecer, por mais descrédito que os governantes lancem no seu povo, por mais dificuldades que tenhamos de arrostar, haverá sempre um sorriso, uma palavra de afecto para com os que sofrem, em suma, um sentido pleno para a vida.
Nos últimos tempos tenho conhecido tantas pessoas que fizeram das suas vidas um hino à Esperança que perante a sua vocação e testemunho só posso tentar seguir-lhe o exemplo e viver com Esperança.