Opinião Victor Dias: Mudam-se os tempos e não muda a desconfiança

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Nós, os comuns e anónimos cidadãos, já não ficamos perplexos com as notícias da alta finança, seja ela portuguesa ou internacional, se bem que a alta finança não tem pátria.

Os factos que têm vindo a público nos últimos tempos, a meu ver, só vêm confirmar que a desconfiança instalada na mente dos portugueses, a respeito do sistema bancário ”nacional”, tem fundamento e remete-nos sempre para aquela velha ideia de que não há fumo sem fogo, embora aqui se aplique melhor, a ideia de que não há fogo sem fogo…

Nunca como hoje se falou tanto em escrutínio, em auditoria, em regulação e controlo. Mas ao que parece, e na alta finança, o que parece acaba sempre por ser, a eficácia desses instrumentos e das entidades a quem compete vigiar e fiscalizar os negócios e actividade das instituições financeiras, tem-se revelado um desastre para o país.

Sabemos hoje, que nos últimos quatro anos, foram injectados no sistema bancário português, qualquer coisa como 16 mil milhões de euros…

Esta soma astronómica que em nada contribuiu para auxiliar o crescimento económico e o desenvolvimento do país, pela simples razão, de que só uma ínfima parcela desses 16 mil milhões de euros, foi libertada para apoiar o investimento produtivo e as empresas portuguesas, na sua expansão para os mercados internacionais. A esmagadora fatia dessa colossal injecção de capital que os contribuintes portugueses fizeram na banca “nacional” foi, como agora viemos a saber, utilizado em operações, no mínimo, estranhas, difíceis de explicar, e muito mais difíceis de compreender, porque envoltas numa teia de relações interpessoais e de interesses que lançaram a credibilidade da Bolsa de Lisboa, nas ruas da amargura. Em três dias, as principais empresas cotadas em bolsa, perderam qualquer coisa como 4 mil milhões de euros, levados por um vendaval que faz adivinhar ventos ainda mais desnorteados. Já não dá para perceber bem, onde acaba a irresponsabilidade de certos gestores, e começa a gestão fraudulenta que arrasta para a incerteza e desconfiança, quer os milhares e milhares de trabalhadores e famílias que dependem da saúde financeira dessas empresas, como os outros milhões de pessoas que podem vir a ser afectados por este desvario.

Ética e integridade

Ética, integridade e transparência nos negócios, é um código de conduta deontológico que as instituições financeiras aplicam, com absoluto rigor e espartana disciplina, mas apenas aos peões do sistema, sobre quem, à mais pequena falha ou desatenção, caiem de forma implacável e impiedosa. Dois pesos e duas medidas, dualidade confirmada pela impunidade que grassa nas mais altas esferas.

Alguns dos figurões, desses que se movimentam nas andanças da nata da nata das cúpulas do sistema bancário, vieram várias vezes a terreiro, para rasgar as vestes e julgar os comportamentos económicos e financeiros das empresas e das famílias portuguesas, a quem acusaram de viver acima das suas possibilidades, quer dizer, de gastar o que não tinham, e sentenciando gravosas medidas do foro político, arrogando-se ainda no direito de carregar nos juízos de valor, como aquele que nos disse:

: – “…ai aguenta, aguenta!…”.

Chegamos a um ponto, em que por mais engenharia publicitária que se faça, por mais que as autoridades e governantes se esforcem, fica difícil, muito difícil mesmo, de deixar intacta a confiança dos portugueses no sistema bancário “nacional”. E digo nacional, porque em boa verdade, já foi nacionalizado com o dinheiro dos nossos impostos, ainda que formalmente, o Estado não o tenha assumido, porque se tem limitado a nacionalizar o “osso”, quer dizer, a parte tóxica e os prejuízos, fazendo de todos nós, accionistas à força, mas sem direito a remuneração, nem a voto na matéria.

Enquanto cidadão e contribuinte, estou preocupado, suficientemente preocupado, ao ponto de tentar ter, para com os meus familiares e amigos, um discurso de confiança que procura afastar o alarmismo e a especulação. E faço-o, porque não é meu timbre, dar crédito a alarmismos e a especulações contraproducentes que só contribuem para contaminar ainda mais a situação.

Há quem tenha a este respeito um discurso radical e até fundamentalista, advogando soluções políticas de severo extremismo, esquecendo-se que o Mundo é hoje uma aldeia global, e que a interdependência se tornou uma fatalidade impossível de contornar.

A minha convicção, cada vez mais firme, é que as pessoas que assumem, sobre qualquer assunto, uma postura radical, rapidamente tendem a perder a razão e a ficar isoladas.

De todo o modo, creio que é legítimo ter dúvidas e muitas reservas sobre o que se está a passar, que é de facto, extremamente grave e preocupante.

O Estado, e em particular o Governo que está em funções, tem de dar sinais muito concretos que demonstrem a sua capacidade de controlo da situação, tomando medidas assertivas que procurem restabelecer a confiança do país, mormente, na eficiência e eficácia do sistema de regulação e controlo desta actividade vital à economia nacional. E tem de o fazer com muita urgência. Com a urgência que se impõe, para evitar que desta vez, caiamos mesmo e literalmente, na banca rota…

Resta-nos esperar, esperar com a paciência possível, que se cumpra a dita poética Camoniana e que à mudança dos tempos corresponda uma efectiva mudança da confiança. Confiança que, como todos bem sabemos, é hoje um capital essencial, para que qualquer economia floresça.

Victor Dias