Opinião Victor Dias: Não sei se me engano e agora tenho dúvidas!…

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No próximo domingo somos de novo chamados a exercer o dever cívico de votar.
Mas agora, mais do que nunca, tenho receio de me enganar e as minhas dúvidas são mais do que muitas.
Para além dos candidatos de faz de conta, considero verdadeiramente candidatos apenas três, sendo que, a meu ver, dois deles procuram disputar o mesmo espaço político, batalhando como náufragos para agarrar todos os escolhos que flutuam no centrão, entre gente perdida e descontente com o desgoverno e gente que tem memória e não esquece o passado. É que os respectivos abonos de família que cada candidato supõe ter garantidos podem não ser suficientes.
Há uma pergunta lancinante que ecoa no espaço público e vai ressoando nas nossas cabeças, como por acção de uma certa ressonância mórfica – quem são os culpados?… Quem são os verdadeiros responsáveis políticos pela situação a que chegamos em Portugal?…
Todos parecem querer invocar aquela expressão fulminante que vale quase toda a obra “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garrett, quando o Romeiro é questionado sobre a sua identidade e responde arrebatadoramente: -“…ninguém…”.

Entre um Poeta que está amarrado a um bloco de problemas e a uma força poderosa que nos desgoverna sem rumo e um candidato que não teve a coragem de ser fiel aos princípios que afirmava obedecer, promulgando leis com as quais não concordava. A escolha é quase tão difícil como optar entre ter de engolir um sapo ou uma rã, se bem que a rã será, porventura, mais fácil de deglutir…Os leitores perdoar-me-ão, mas esta foi a imagem mais suave que encontrei para ilustrar o sentimento que vai, por certo, invadir muitos eleitores, quando estiverem no espaço privado da cabine de voto.

Poder-nos-ia restar a opção Nobre, aparentemente liberta da trama política que nos sufoca há quase quatro décadas. Mas aqui a resposta à tal pergunta sobre a identidade, em vez de “…ninguém…” só poderia ser “…a mão de Soares…”, e aí teremos de voltar ao cartório para verificar as culpas.
Tenho pena que o Dr. Nobre tenha comprometido uma obra humanitária de grande utilidade e dignidade, para desempenhar o papel de uma personagem que deambula entre o Romeiro, imaginado pelo nosso Garrett e o D. Quixote, de Cervantes, lutando contra moinhos de vento, alternando entre o registo de uma visão idealista e sonhadora de um Mundo de utopia e um caminhar para lugar nenhum, sem ideias políticas e sem perceber bem para onde vai e o que se exige a um Presidente da República, quais são os seus poderes, a sua magistratura e capacidade efectiva de intervenção política.
Neste cenário é fácil compreender que o receio de nos enganarmos é imenso e as dúvidas só nos deixam pensar que a nossa escolha não será por absoluta convicção, mas numa lógica do velho adágio popular – “…do mal o menos…”.

Mas se a Democracia é isto, então as minhas dúvidas ainda se adensam mais.
Não sei se os leitores viram um telefilme que passou na SIC, no passado domingo, em que a certa altura o protagonista exclamou: – “…temos de sacrificar alguns para o bem de todos…”. Independentemente das circunstâncias próprias de cada tempo, o que está acontecer agora é precisamente o contrário, sacrificam-se todos para o bem de alguns, sob a capa de uma legitimidade imposta pelo regime democrático. Suprema ironia a do nosso destino colectivo… não vos parece?…
Bem, mas como não permito que ninguém faça as minhas escolhas, lá estarei, se Deus quiser, a cumprir com o meu dever, acalentando a esperança de que as minhas dúvidas já se tenham minimamente dissipado, para a maior tranquilidade possível do meu espírito.