Opinião Victor Dias: Neoliberalismo reformista será solução?…

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Todos nós, cidadãos habituados a pensar a vida e a política, nos questionamos sobre o Estado que temos, sobre a sua eficiência e adequação às necessidades do país e do povo.
Ao fim de 36 anos de Democracia e Liberdade, vemo-nos confrontados com uma realidade que apresenta quatro sub extractos sociais, os ricos que o são cada vez mais, os políticos profissionais, alguns deles instalados na classe anterior, a classe média, a quem são pedidos todos os sacrifícios e atribuídos todos os deveres e, por fim, os pobres, onde caiu alguma da classe média, onde há pessoas a passar privações e a viver uma pobreza envergonhada, mas onde também há alguma subsídio-dependência dos rendimentos mínimos e de outras prestações sociais. No meio de tudo isto, há uma imensidão de pessoas a sofrer com situações dramáticas de desemprego e que apesar de terem descontado durante muitos e muitos anos, em função dos rendimentos que auferiam, se vêm de repente, a ter de sobreviver com uma míngua que na maioria dos casos, pouco mais dá do que para se alimentar e vestir a família condignamente.

É neste cenário de crise que está afundar o país, com uma situação política perturbadora, em que o espectro partidário e parlamentar não nos dá qualquer razão para termos confiança e esperança, porque não se vislumbram actores políticos com verdadeiro sentido do dever e autêntico espírito de serviço, a não ser o próprio interesse político pessoal e a sua manutenção no activo, que surge uma proposta do PSD, subscrita pela nova direcção e aprontada por um directório de sábios neoliberais animados por um ímpeto reformista que, nesta altura, só vem lançar para a fogueira da nossa actual situação política, mais motivos de perturbação.
Mas é isto que o país precisa para sair da crise, para melhorar a vida dos pobres e da classe média tão massacrada?…

Quando se fala em reduzir a despesa pública e os gastos correntes com o funcionamento do Estado, vem logo um coro de iluminados querer cortar a torto e a direito, no serviço nacional de saúde, na educação, nos vencimentos de quem trabalha, nas prestações sociais justas e em tudo o que lhes parece excessivo e gorduroso. Mas quando se fala em reduzir o número de deputados, em cortar nas mordomias e extravagâncias dos políticos e dos “boys”, quando se põe em causa as indemnizações milionárias e os prémios chorudos dos gestores das empresas públicas e participadas pelo Estado, quando se questionam as reformas douradas de ex-ministros e ex-titulares de altos cargos públicos, com pouco mais de doze anos de serviços prestados à nação, aí cai o Carmo e a Trindade, e afinam-se os coros partidários, para em uníssono, coisa muito rara, virem a terreiro com toda a desfaçatez, falar de populismo.

A meu ver, os políticos competentes e honestos, intelectualmente e de facto, até deviam ser mais bem pagos, com um vencimento compatível com o seu trabalho e responsabilidade, mas o exercício dos seus cargos não deveria servir para fazer currículo, abrindo alas para, “Depois do adeus”, entrarem pela porta grande nos potentados do sector empresarial público, ou nas grandes empresas com interesses nos investimentos do Estado, onde a informação qualificada vale ouro. Estão a ver a coisa, não estão?…
Perante a situação concreta de enormes dificuldades que enfrentam quase dois milhões de portugueses, vir agora pôr no topo da agenda política, a revisão da Lei fundamental, mexendo em aspectos altamente sensíveis e melindrosos é dar ao país um péssimo sinal, é dizer que não se entende nada de “timings” políticos, que não se tem sensibilidade social e, mormente, promover a instabilidade política, algo que não precisamos de todo.

Tenho para mim que a situação a que chegamos, em Portugal e no Mundo, fica a dever-se, de sobremaneira, às investidas de um capitalismo neoliberal sem freio que não olhou, nem olha, a meios para atingir desalmadamente os seus fins, invariavelmente os mesmos, os lucros chorudos.
Não sou anticapitalista, mas também não advogo um neoliberalismo em roda livre, sem controlo e sem regulação eficaz. Para mim, as empresas são comunidades de interesses, onde todos devem ter a justa remuneração do seu investimento, seja ele capital ou força de trabalho.
O PPD/PSD sempre foi um partido interclassista, onde os deveres e direitos se compaginaram de uma forma harmoniosa, onde a concepção de uma sociedade justa e solidária me pareceu ser a mais exequível e próxima das justas aspirações das pessoas.
Confesso que começo a não reconhecer, na linha de orientação que parece quererem dar-lhe, o meu partido de sempre.

Sim! Penso que a Constituição tem de ser revista, principalmente naqueles aspectos que fazem dela um texto datado, concebido e sucessivamente revisto, sem que os seus redactores conseguissem libertar-se das marcas ideológicas que se instalaram no pós revolução, mas daí a a sujeitá-la a um furacão reformista neoliberal vai uma enorme diferença. Para esse peditório já o Mundo inteiro deu demais…

Victor Dias