Opinião Victor Dias: O papel da Cultura na crise

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Apesar de poucos políticos falarem verdade, preferindo o autismo e a mentira descarada, estamos hoje a dar razão a quem não se deixou encantar pela vã glória de mandar e dizer o que se impunha e a ética política exigia.

É claro que agora pouco importa apontar culpados, até porque não é preciso ser Juiz para se ver com toda a certeza quem é responsável pela situação actual do país e do Mundo.
Depois de ter encostado Pedro Passos Coelho à parede, Sócrates veio a terreiro dizer que era preciso fazer um pequeno esforço patriótico, sobretudo para pagar as favas da sua teimosia em levar por diante, entre outros, o faraónico projecto do TGV que vai ligar o Poceirão a Caia, duas palavras que encerram qualquer coisa de enigmática ironia do destino, levando-me a interrogar porque havemos de sair do Poceirão e parar em Caia, na vizinha Espanha. Não sei porquê mas acho que isto não augura nada de bom…

Cultura

Numa situação de crise instalada, propícia a uma certa instabilidade política e social, o papel a desempenhar pela Cultura é, a meu ver, muitíssimo mais relevante do que nunca.
A leitura, a audição de boa Música, ao vivo ou gravada, a ida ao Teatro ou ao Cinema, enfim, todos os momentos em que as pessoas possam, por um lado, fazer uma pausa e abstrair-se das agruras do quotidiano marcado pelas dificuldades e contrariedades da crise e, por outro lado, instruir-se e tornar-se menos vulnerável às manipulações e instrumentalizações que os políticos procuram utilizar para dourar a pílula, ou disfarçar as suas reais responsabilidades, a sua incompetência e falta de seriedade.

Numa sociedade democrática, as comunidades culturalmente mais evoluídas que prezam uma vida cultural intensa e rica, são mais exigentes para com as suas classes políticas dirigentes, são mais participativas na vida pública e democrática e sobretudo têm uma maior consciência do sentimento identitário de pertença cultural, obtendo daí uma maior e melhor coesão social.
São bons exemplos disto que acabo de referir, os países nórdicos, como a Suécia, a Noruega, a Dinamarca e a Finlândia, onde os investimentos na Educação e na Cultura são desígnios nacionais que não são expostos a grandes divergências e muito menos a lutas partidárias inúteis.

Essas democracias são, estou absolutamente certo disso, mais evoluídas e estáveis, porque esses povos já atingiram um nível cultural tão elevado que não permite às classes dirigentes, os descaramentos (e desavergonhices) que se verificam nas sociedades latinas do sul da Europa.
Aquilo de que falo não é de nenhum efeito de alienação colectiva, bem pelo contrário, a Cultura, enquanto aquisição de conhecimento, de fruição estética e intelectual, de entretenimento e diversão, é sem qualquer sombra de dúvida, o melhor apetrechamento dos cidadãos, individual e colectivamente considerados, para escolher o seu destino pessoal e o das comunidades a que pertencem, fazendo as suas escolhas, a todos os níveis, com sabedoria e no uso pleno de um maior número de faculdades intelectuais, sociais e políticas, dado o seu grau de esclarecimento.

Uma vez democratizados os benefícios de uma vida cultural rica e intensa, alargando a participação activa nas actividades de matriz cultural, teremos cidadãos e comunidades menos permeáveis aos embustes, às falácias, à mentira, ao autismo e, mormente, muito mais exigentes que obrigarão os políticos a ser mais assertivos e a falar sempre verdade.
Tendo de dar contas a uma base social mais culta, mais esclarecida e capaz de ajuizar por si própria, as cúpulas ver-se-ão confrontadas com a necessidade permanente de pensar e agir com a máxima eficiência e eficácia, na certeza de que o julgamento da sua acção política será pautado por premissas e critérios muito mais rigorosos e exigentes.
Um dos maiores ditadores do século XX, cujo nome me escuso de citar propositadamente, costumava afirmar: -“…quando ouço a palavra Cultura, rapo logo da pistola!…”.
Se os ditadores pensam assim da Cultura, os verdadeiros democratas só podem pensar justamente o contrário. Não acham?…

Se assim for, se os autênticos governantes democratas compreenderem bem a dimensão dos benefícios de uma vida cultural enriquecedora, serão os primeiros a impedir que na hora de cortar nas despesas públicas, as escassas verbas destinadas à Cultura, sejam as primeiras a sofrer cortes cegos, normalmente determinados apenas por critérios económico-financeiros, ignorando tudo o que possa estar a ser posto em causa no futuro.

Recordo que após a II Guerra Mundial, na Alemanha destroçada por um conflito desastroso para toda a Europa, mas cujas consequências também foram, no final da guerra, muito penalizadoras para os alemães, deixando as cidades mais importantes praticamente destruídas, uma das prioridades estabelecidas na reconstrução daquele país, além dos hospitais, por razões óbvias, e das escolas, foram os teatros, as bibliotecas e salas de concertos, a merecerem intervenções rápidas de reconstrução e recuperação. Esta medida foi tomada na consideração de que recuperar a vida cultural da Alemanha era tarefa para, pelo menos duas gerações, e como tal não havia tempo a perder, era preciso recomeçar quanto antes a restaurar os hábitos de Cultura, apesar da crise cujos contornos, pese embora todos os pesares, não era, nem sequer em hipótese meramente académica, comparável às crises da Europa de hoje.Nessa época a Alemanha não vivia na banca rota, pela simples razão de que nem sequer tinha banca, enquanto sistema financeiro minimamente organizado e no entanto, ao fim de poucos anos, deu cartas, na Europa e no Mundo.

É interessante reflectir sobre o facto de uma instituição como a Orquestra Filarmónica de Berlim, com mais de 200 anos de actividade artística, ter sobrevivido às várias guerras em que a Alemanha se envolveu, sendo duas delas de dimensão Mundial, altamente devastadoras para a própria Alemanha. Dá que pensar, não dá?!…