Opinião Victor Dias: O silêncio e as palavras

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Não nutro nenhum interesse especial pelos livros de José Saramago, não me seduzem os temas das suas obras e tão pouco a sua peculiar forma de escrever.
Reconheço que talvez o problema resida em mim, mas contudo, não escondo um certo orgulho por ter um compatriota meu como NOBEL DA LITERATURA, entendendo essa distinção universal como um reconhecimento da valia e Arte, da nossa literatura e, bem assim, de muitos outros nomes grandes das nossas letras, como Camões, Pessoa e Eça de Queirós, entre tantos outros e tão grandes. É como se Saramago os representasse a todos, embora, como ele próprio afirmava: – “…eu sou o escritor português que ganhou o PRÉMIO NOVEL…”, absolutamente.

Fui acompanhando o fenómeno mediático montado em torno da sua morte e exéquias fúnebres e, como qualquer mortal, no meu caso crente e temente a Deus, questionei-me…
Do pouco que conhecia de José Saramago, fiquei com a ideia que todo aquele aparato montado, enfim, toda aquela publicidade lhe era, no mínimo, estranha, para não dizer incómoda. A meu ver, havia ali qualquer coisa que não batia certo com a vontade do próprio e que não atinava com o pensamento e visão expressa do Homem que, eventualmente, ia ao arrepio da sua vontade…
A respeito do Homem e da sua Obra, foram poucos os que demonstraram a sensatez e a temperança de dizer as palavras certas, ou em coerência com a sua consciência e postura habitual, se remeteram ao silêncio, evitando a polémica, a especulação e o exagero, como nos merecem todas as pessoas na hora da sua morte.

Gostei de ouvir e subscrevo em absoluto tudo quanto disseram dois homens da Igreja que, neste levantar da espuma mediática, foi tão fustigada com acusações, condenações e impropérios, não raras vezes, quase a culpar a instituição e os católicos, por tudo de mal quanto aconteceu ao escritor em vida e na morte.
Os padres Carreira das Neves e Tolentino de Mendonça tiveram palavras sábias, sensatas e cordatas, reconhecendo o imenso talento artístico e literário de José Saramago, afirmando as suas discordâncias naturais, com suavidade e o respeito que a hora exigia. Também os bispos deram da Igreja Católica Portuguesa um sinal de grande dignidade e sentido patriótico, emitindo uma nota de pesar pelo falecimento do escritor, como aliás se impunha.

Só lamento que de Roma, não tenha vindo um sinal idêntico que afinasse com o toque da nossa Igreja e que um certo articulista tivesse publicado uma crítica, no jornal “il Observatore Romano”, um órgão oficial da Santa Sé, sobre a morte deste venerável ancião da Cultura de Portugal que me entristeceu muito, como português, mas também como católico. Resta-me a consolação deste artigo estar assinado, ou seja, responsabiliza e compromete principalmente a opinião daquela pessoa.
É nestes momentos que o silêncio vale mais do que mil palavras!…