Opinião: Arminda Moura – Calendarizar o amor

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Quando olhamos o calendário alguns dias nos marcam o pensamento e os associamos a algum acontecimento. Este mês temos dois, São Valentim e Carnaval. O segundo já tem barbas na tradição portuguesa e embora careça de aval governamental para se decretar dia de tolerância muitos já o consideram feriado e é dia de folia. Procurem e olhem nas agendas e calendários e vejam como está este dia lá marcado… Feriado! Não entendo e não compreendo o porquê de não ser de umas vez por todas declarado feriado pois considero que já se institucionalizou que este é o dia de se extravasar e exorcizar o que de mau se passa neste país e na sociedade. E se o governo diz que não o povo vota contra e vota na folia esquecendo por um dia como se vive mal politicamente, socialmente, economicamente, ideologicamente e só recordam neste dia como se mente e mente. Não há mente que aguente o quanto se mente! E mesmo não sendo o primeiro de Abril, uma brincadeira no Carnaval ninguém leva a mal. Neste dia se aproveita a ocasião e se dizem verdades brincando ao Carnaval. Não quero considerar os desfiles carnavalescos de escárnio e mal dizer mas, que aparelham com esta dupla aparelham. Mas antes deste dia tão fértil em alegria e chacota temos o Dia de São Valentim.

São Valentim é um santo católico? Sim. Existe mais que um? Sim. Mas qual deles é que considerado o santo padroeiro do amor? Eu própria que já conhecia um pouco da história procurei saber um pouco mais e quanto mais aprofundava mais me emaranhava com as várias versões do mesmo tema. Este dia calendarizado por muitos, mistura o profano com o religioso, talvez fruto de dados perdidos pelo tempo e que hoje dificilmente conheceremos porque a própria história do tempo escondeu tais informações.

A versão mais conhecida de São Valentim é a de um sacerdote que no século III, em Roma, celebrava casamentos à revelia do imperador Cláudio II. O imperador queria formar um exército romano forte e robusto mas não conseguia porque os homens não se dispunham a abandonar as suas famílias e mulheres para irem para a guerra. Como medida Cláudio II proibiu os casamentos dos jovens. São Valentim ajudou muitos jovens casando-os em segredo, o imperador ao tomar conhecimento dos actos cometidos pelo sacerdote mandou que este fosse preso pois este contrariava o engrossar do número de soldados nas batalhas, sendo o sacerdote torturado e decapitado a 14 de Fevereiro.

A Igreja o considera padroeiro dos namorados por ter defendido com sua vida o Sacramento do Casamento. Mas por outro lado o costume popular originário em uma crença durante a Idade Média, na Inglaterra e da França, de que na metade do segundo mês do ano, Fevereiro, começava a estação do despertar da vida e também do romance, quando os pássaros começam a juntar e a preparar os ninhos. Nasceu assim uma tradição bonita, os apaixonados dessa época escreviam cartas de amor ou enviavam lembranças aos amados, ficando conhecidos os apaixonados marcados pelo cupido desta forma como valentines. Hoje o “dia dos valentins” é o “dia dos namorados”.

Mas será que estamos enamorados? Pergunta que muitos fazem e a resposta é óbvia, o amor anda no ar. E muitos confiantes na resposta de fazer um papel bonito de namorado enamorado entram para o clube consumista.

Por estes dias muitos correm em busca de algo que satisfaça o ego, os empolgue, lhes iniba a culpa ou esvazie a carteira, procurando deste modo encantar e deslumbrar a namorada, o companheiro, a esposa, o marido ou alguém por quem o coração bate descompassadamente sempre que encontra o olhar ou um sorriso que os afaga e não sabem como dar resposta a tal sentimento não correspondido. Esta acção feita sem pensar já está racionalizada, para não dizer robotizada, e assimilada pela difusão e propaganda comercialista e consumista que a todos entulha e capta sem reflectirem no que fazem.

O comerciante mais astuto e conhecedor destes meandros propagandísticos elabora mecanismos e estratégias aproveitadora de histórias verídicas e lendárias criando sonhos consumistas propícios a amealhar e a aforrar mais uns euros extras. E se as floristas, por estes dias, vendem mais uns ramos de flores ou rosas já a restauração deleita o paladar com manjares em ambientes adornados no tema do amor. Todos se engalanam para este dia, é só um, mas não faz mal, rende para os restantes dias do mês!

Desiluda-se quem acredita que os restantes comerciantes ficam serenos e impávidos ao dia, admito serem poucos os não aproveitadores de tal festividade beneficiando da combinação de todos os cinco sentidos e misturando-se a gula com a cobiça, a vontade com o desejo e o bem querer se baralha neste labirinto de ofertas e satisfação de vontades e desejos. Poderia dar muitos exemplos tão bem conhecidos de todos nós mas não sou contra quem faz pela vida.

Tudo deve de ser feito com conta, peso e medida, nada de extravagâncias porque o amor não escolhe hora, dia ou mês, não está calendarizado e se não existe ainda poderá existir…basta ter a porta do coração aberta.

O amor é algo belo, especial, é uma aliança feita a dois. Este se reflecte em alguns casais, especialmente naqueles que já se encontram curvados pelas rugas do tempo e embora suas fisionomias não transpareçam o fulgor da juventude esta relata um amor vivido a dois pelos simples gestos trocados entre eles. E se alguns de nós ainda olham seus pais ou avós de mãos dadas tal qual um casal de adolescentes podem considerar-se abençoados pelo amor porque para estes eternos namorados o tempo não passou e nada como aprender com eles a receita de tal elixir.

É bom existir este dia porque nos lembra o amor, esqueçamos é o comercialismo que o rodeia. Mostrar a alguém o quanto se gosta dela é bom e salutar agora quantificar esse amor numa prenda bem embrulhada com laçarotes que parecem feitos em laboratórios de engenharia não quantifica o amor. Este não se quantifica, não se mede, não se pesa, não tem graus nem velocidade mas quando chega ao coração é mais forte que o rastilho de uma explosão. Para quê descrever o amor, muitos de nós sabemos qual o sabor que este dá à vida por isso o melhor é marcar no calendário não um dia mas todos os dias assim quem sabe talvez o mundo fique melhor.