Opinião Fernando Moreira de Sá: Fundamentalismo Helvético

0
127

O advento da modernidade, segundo alguns filósofos e pensadores, afirmou uma moral livre da religião e a respectiva introdução na sociedade de valores estritamente laicos. Uma ética laica universalista na qual a proclamação dos Direitos do Homem foi a grande afirmação da moral universal que se exprime em princípios simples e incontestáveis e que não pode ser revogada por nenhuma lei humana. Os direitos inalienáveis dos sujeitos como base da organização social e política. Terminou, segundo estes, a “lógica universal que entendia o Homem como corrompido pelo pecado original” e, como tal, só na igreja existia a moral.

Obviamente, todas estas alterações de modelo foram realizadas paulatinamente. Hoje, em plena Era Digital, as alterações sentem-se de forma mais profunda, sobretudo no chamado mundo ocidental. O ponto de podermos estar a assistir, segundo diferentes autores e aos diferentes “ismos” de ambos os lados da barricada, a uma gradual passagem do “oito para o oitenta”. Ora, perante o referendo realizado na Suíça sobre os famosos minaretes, só podemos sublinhar a vertigem de um fundamentalismo dito democrático gerado por uma sociedade que vive do e para o medo. Se o simples facto de referendar semelhante tema é, por si só, exemplificativo, não deixa de ser um perigoso sinal e que nos faz recordar a velha máxima: quem semeia ventos, colhe tempestades.

O fundamentalismo islâmico, como o de outras religiões, não está na construção dos locais de culto. Porém, as proibições demagógico-populistas, essas sim, são um foco de instabilidade e um fermento de fundamentalismos. A preponderância do “indivíduo soberano em relação a Deus” teve efeitos na nossa sociedade e foi, para muitos, o motor de desenvolvimento e afirmação do pensamento democrático. Mas tal não pode nem deve significar o coarctar das liberdades religiosas. A nossa liberdade, a liberdade de ateus e crentes, não existe quando um deles impõe ao outro as suas ideias, os seus dogmas. Nem tal é referendável. Nenhum decreto pode proibir os católicos de professar a sua fé ou os muçulmanos de construir os seus locais de culto. O bom senso e o respeito pelo outro terão, obrigatória e originalmente que imperar.
Da mesma forma que condenámos a proibição do catolicismo em certas paragens, não podemos deixar de condenar, veementemente, o referendo Suíço por tudo o que ele representa de desrespeito da liberdade religiosa do outro. O combate ao fundamentalismo não se faz utilizando as mesmas armas daqueles que pretendemos condenar. No dia em que nos tornarmos iguais na forma perdemos a razão e a barbárie imperará. Não é exterminando os muçulmanos que acabamos com o fundamentalismo mas é com referendos destes que engrossamos, que damos força e motivos para o crescimento deste e doutros “ismos”.
A nova ética moderna foi uma resposta a um fundamentalismo religioso anterior. O pior que lhe pode acontecer, a ela e a todos nós, é torna-se numa nova ética fundamentalista.

P.S. Aproveito para convidar todos os leitores para uma interessante 1º tertúlia do blogue Aventar (a segunda será na Maia e com um tema igualmente interessante) que se vai realizar amanhã: “Salgueiro Maia e a Memória da Revolução”, sábado, 5 de Dezembro, 18h00. Com Carlos Abreu Amorim e João Teixeira Lopes no Clube Literário do Porto (à Ribeira).