Opinião Raul Cunha e Silva: O conflito Caim e Abel é uma metáfora

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Quem ler a Bíblia, livro de uma extraordinária beleza, se não dominar a História das Religiões e da Civilização em geral, corre sério risco de fazer afirmações que relevam da ignorância mais profunda.

Bíblia é o plural da palavra grega biblion que significa livro, Neste caso, Bíblia são os livros, ou seja, uma colecção de 73 que exprimem o conjunto de textos reconhecidos como canónicos, ou seja, oficiais. Segundo o concílio de Trento, a Bíblia consta de 73 livros sendo 46 do Antigo Testamento que narram a história da humanidade antes de Cristo e 27 do Novo Testamento, que refere a doutrina Cristã.

Podemos afirmar, que a Bíblia exprime mitos, lendas, histórias, sagas, textos que têm gerado polémicas que são de considerar mesmo quando são um epifenómeno da ignorância. No texto que estamos a construir devemos partir de alguns princípios que penso universais.

Em primeiro lugar, há várias religiões no mundo e os fiéis que as seguem pensam em Deus e nas suas leis religiosas e morais, no Além.

Em segundo lugar, esses vários princípios são universais na medida em que configuram uma religião cósmica que é paradigma de todas as outras.

Em terceiro lugar, as doutrinas, os conceitos, os nomes partem de realidades concretas que servem de metáforas para as realidades metafísicas e religiosas e, por isso, invisíveis.

Em quarto lugar e referindo-nos à Bíblia, o Deus bíblico tem vários nomes: Desde logo, o primeiro inscrito no primeiro versículo do Génesis, No princípio criou Eloim o céu e a terra (Eloim é um plural e à letra significa os deuses). Para os judeus Eloim é o Deus todo-poderoso que criou tudo quanto existe.

Outro nome de Deus é o célebre tetragrama (IAVÉ) que significa eu sou o que sou, Deus. Eu sou Iavé (Êxodo, 3.14). Se quisemos, é Deus sem nome nem imagem. Os judeus, como de resto os semitas, não admitiam nem imagem nem nome de Deus,

Adonai e também EL que significa poderoso e tem como equivalente Alá, deus do Islão.

Esta pluralidade bíblica dos nomes de Deus demonstra que os poderes, qualidades e defeitos do Deus dos judeus são influência dos deuses dos vizinhos Cananeus e, em geral, dos povos da Mesopotâmia. Não devemos ignorar que na Bíblia há conceitos de deus idênticos aos reis do tempo, mas isso não permite ignorar conceitos metafísicos, como os transcendentais: Deus é ser, é bom, é poderoso, é verdadeiro e justo. O resto é confundir o principal com o acessório.

Os textos bíblicos do Velho Testamento, como, de resto, os textos sagrados das grandes religiões referem e relatam doutrinas e acontecimentos ditados pela consciência humana, pela necessidades de compreender os mistérios da vida, de interpretar a vontade dos governantes do mundo ou de discordar, admitindo também a possibilidade e o facto de manifestações divinas, usando, nem sempre, uma linguagem que os homens possam compreender. É neste contexto que devemos perceber a Criação do mundo referida no Génesis, segundo a qual, quando Deus, depois de criar tudo, descansou (como se Deus precisasse de descansar); o Dilúvio que nem sequer é original na Bíblia (Gilgamesh, muito antes de Moisés, descreve-o); o código de Hamurabi, ou seja, o conjunto de leis deste rei sumério que viveu muito antes da escrita dos mandamentos da Lei mosaica, etc.

A Bíblia, o livro dos livros, o livro mais lido do mundo, é uma imagem dos tempos primordiais, das transformações do Médio Oriente; refere tempos do advento da escrita, da passagem e do triunfo da agricultura sobre a pastorícia e recolecção, da alternância de reis “democratas”, com Ciro, rei dos Persas, ou sanguinários como Herodes, rei dos Hebreus.

Foi neste espaço que ocorreram as grandes transformações da humanidade, de que vale a pena referir a história de Abel e de Caim. Um era agricultor (Caim), outro pastor (Abel)… Mais que uma história de dois irmãos, e para além das explicações religiosas, segundo as quais este crime é a generalização do pecado entre irmãos e, por isso, a generalização do mesmo a todo o género humano, a verdade é que também no Médio Oriente se processou a passagem do sistema pastoril e de recolectores para o sedentarismo agrícola.

A agricultura implicou o sedentarismo, a indústria do ferro, do cobre, da espada, do fogo, da urbanização com implicação na mudança dos signos, símbolos, estatuto dos deuses, desigualdades sociais que ocorrem nas cidades.

O episódio de Caim e de Abel exprimem a atracção que o mundo (urbano) dos cananeus exerceu sobre os judeus que praticavam a pastorícia e a solidariedade típica destas civilizações. Daí que houvesse lutas entre agricultores emergentes e pastores (luta que ainda hoje se manifesta, mesmo no interior de Portugal).

É por isso que defendo que o conflito Abel – Caim é uma metáfora que, como as metáforas, em geral, exprimem realidades profundas. Neste caso, o conflito de dois paradigmas de civilizações: um, o de Abel, ou seja, o dos pastores perde, é morto; outro o de Caim, isto é, o das cidades e da agricultura vence, sobrevive até aos dias de hoje.

A dureza das transformações ocorridas na mudança dos paradigmas analisados não podia ser mais realista que o símbolo do assassínio de dois irmãos.

Muitos destes contextos deixei expressos no livro “12 lições de História Comparada das Religiões”, edição do ICM (Instituto Cultural da Maia) que, segundo penso, poderão ser adquiridos na instituição.

2 COMENTÁRIOS

  1. O Antigo Testamento tem 39 livros. A Bíblia utilizada pelos católicos é que, com os livros apócrifos, perfaz 46 livros no AT.

  2. Ignorar qualquer que seja à historia biblica para mim é uma forma de querer julgar conceitos que ja existem por si só. Se cada um dos eruditos isolar em suas sabedoria, uma historia biblica, logo nada mais tera seu devido valor. A Biblia é para ser lida e entendida por qualquer um dos seres humanos, sem ser levado em conta o que os eruditos pensam e acham sobre ela,; pois cada um deles fazem seus proprios conseitos sem levar em conta a originalidade das sagradas escrituras!!!!!!!! Leia um bom livro:::TEOLOGIA: A TORRE DE BABEL DOS NOSSOS DIAS

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