Opinião Victor Dias: Ano novo velhos problemas

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2010 será um ano particularmente difícil, a julgar pelas previsões feitas por várias entidades independentes, algumas delas nem tanto, que ao longo de 2009 foram tornando públicos os seus estudos económicos e sociológicos.

Não sendo eu um especialista nessas matérias, não me coíbo no entanto de ter uma opinião formada sobre a situação conjuntural e estrutural que caracteriza o Portugal deste século XXI.

Fazendo uma leitura entrecruzada das conclusões e dos dados estudados, verifica-se e confirma-se que os números do desemprego, o nosso maior flagelo social, têm vindo a crescer, muito para além daquilo que seria aceitável como consequência da crise internacional, cristalizando o desemprego de longa duração, registando-se igualmente um agravamento nas camadas jovens, com particular enfoque nos licenciados que nem aceitando empregos não qualificados conseguem arranjar trabalho.

Perante um cenário concreto de terrível depressão económica, cujas consequências sociais ainda não se fizeram sentir com acutilância que já se notam noutros países, como a Grécia por exemplo, as medidas que o governo português ainda não tomou, devem preocupar-nos a todos, sendo notória uma manifesta incapacidade, para não dizer incompetência, para proceder a uma análise macro-económica eficaz e aquilatar eficientemente sobre a origem dos problemas, seus principais efeitos sociais e económicos, para pensar medidas adequadas que os resolvam, agindo com celeridade e assertividade.

Nos anos que antecederam, não aconteceu nada disto, bem pelo contrário, assistimos à implementação de medidas políticas avulsas, muitas vezes descoordenadas, aplicadas numa lógica de navegação à vista, sempre com os olhos postos no calendário eleitoral, sem resultados palpáveis que justificassem os excessos propagandísticos utilizados para anunciar, por vezes repetidamente, as mesmas iniciativas governamentais que no fim, acabavam por deixar toda a gente com aquela impressão: -“…a montanha pariu um rato…”.

O grande e surpreendente resultado do actual governo socialista foi, a meu ver, o facto de, apesar de todos os erros cometidos, ter conseguido segurar o poder, embora tenha perdido a sua confortável maioria que mudou o país, mas para pior. Uma maioria que não serviu, como devia, para implementar as reformas necessárias, mas que deu azo à arrogância, à prepotência e a uma certa tentação controleira que por várias vezes se revelou, tentando condicionar diversos órgãos de comunicação social e outras instituições, por definição independentes do poder político, algumas delas de natureza eminentemente privada.

Oposição

A realidade política portuguesa actual é, do meu ponto de vista, absolutamente normal em Democracia. Temos um governo sem maioria parlamentar e uma oposição fragmentada por 4 forças partidárias. Todos sem excepção, inclusive o PSD, que é o maior partido da oposição, ainda não conseguiram sublimar os seus interesses particulares, para fazer valer o verdadeiro interesse nacional que na situação actual é a resolução dos gravíssimos problemas sociais decorrentes do desemprego.

O autêntico sentido de Estado e do dever, que os políticos que nos governam e os deputados da nação deviam ter, é sem dúvida, o envidar de esforços concretos para acudir à verdadeira situação de emergência social em que largas centenas de milhares de portugueses se encontram.

Não podemos aceitar que deputados percam o seu tempo a insultar-se, chamando palhaços e vendidos uns aos outros, e que transformem a casa da Democracia, num circo, onde se exibem os mais incríveis números da arte da má educação e dos piores exemplos cívicos que se podem dar às jovens gerações portuguesas.

A política tem de ser uma actividade pública nobre, à qual só devem ter acesso pessoas sérias, intelectualmente honestas, com um profundo sentido da cidadania e da ética, bem-educadas e empenhadas em servir a comunidade. Só essas pessoas são dignas de desempenhar cargos públicos.

Valor e mérito tem quem é capaz de governar em Democracia, respeitando a vontade do Povo que no nosso caso concreto, não quis que o PS tivesse uma maioria absoluta, expressando essa vontade com toda a clareza.

Se os partidos do actual sistema político não forem capazes de se entenderem, se não se concentrarem nos problemas do país real, se não promoverem, no parlamento, os acordos e entendimentos políticos indispensáveis à resolução dos velhos e cada vez mais graves problemas do país, o regime democrático pode correr riscos sérios e ainda que a Liberdade e a Democracia não sejam banidas de Portugal, é legítimo perguntar: – De que nos servirá ter Liberdade de expressão e ter Democracia para votar as decisões de governo do país, se quem vai decidir o nosso futuro serão os credores e os eurocratas de Bruxelas, ou muito pior do que isso, os manda-chuva do FMI?…

Todos nós já percebemos claramente os jogos de bastidores e a criação de querelas artificiais que surgem de todo o lado, quiçá, com o fito de manter este clima de guerrilha institucional e parlamentar, para fazer surgir, quando os actores acharem oportuno, uma crise política que dê ao país a ideia de que é inevitável clarificar a situação, empurrando-nos novamente para eleições, como se vivêssemos todos numa espécie de “El dourado”, quando na verdade vivemos num país de pelintras, governados por avestruzes com a mania das grandezas.

É imprescindível que os políticos e titulares de cargos públicos, como governadores de bancos nacionais, presidentes de institutos públicos, de altas autoridades disto e daquilo, e administradores de empresas públicas, em nome da decência e da eficácia do seu próprio discurso, sejam coerentes e consequentes, e dêem um exemplo digno que demonstre aos seus concidadãos, que querem efectivamente resolver os gravíssimos problemas do país, sendo os primeiros a cortar na própria carne, fazendo sacrifícios, dispensando mordomias e privilégios que, perante o cenário social em que vivemos, são verdadeiramente insultuosos.

A ética e a moral pública, mais do que valores de conduta pessoal e social, são imperativos sem os quais será completamente impossível salvar Portugal da banca rota, embora isto já não vá lá só com isso, é preciso Justiça e Honra.

Cavaco Silva

Considero que o ano de 2009 não foi o melhor para o Prof. Cavaco Silva, mormente quando perdeu um pouco a compostura e veio à televisão demonstrar, num tom demasiado irritado, a sua indignação pela tramóia que lhe foi armada no caso Fernando Lima, mas enfim, todos temos o direito a deixar estalar o verniz ao menos uma vez, principalmente, quando percebemos que nos querem meter no mesmo saco de quem passa e ganha a vida, a especular, a criar factos artificialmente e a manipular a informação, com o fito de desinformar…para servir interesses obscuros.

Pese embora esse momento menos bom, que eu preferia não ter presenciado, mas que não faz a regra do registo pessoal do Prof. Cavaco Silva, continuo a nutrir pelo actual Presidente da República, além de muito respeito, uma admiração fundada no reconhecimento de que ele sabe gerir bem o tempo, o modo e o discurso, intervindo, quase sempre, com precisão, sensatez, profundo conhecimento dos problemas e das suas causas, tendo a sabedoria, de experiência feita, para apontar caminhos e soluções, sem se intrometer em áreas de competência que não lhe pertencem, por forma a preservar a todo o custo, a estabilidade política e a Paz Social no país.

Ao ouvir a mensagem de Ano Novo do Presidente dei comigo a pensar que há muito pouca gente em Portugal, em cargos públicos de Estado, que tenha a lucidez, a temperança e coragem de dizer o que os portugueses e os governantes precisam de escutar.

O Presidente meteu o dedo, a mão e o braço todo na ferida, com uma precisão tão cirúrgica e tão certeira que os maiores destinatários das suas palavras, quase nem deram um ai. O discurso deste ano foi, com toda a certeza, aquele que maior eco e acolhimento encontrou junto das pessoas e instituições, realmente, preocupadas com o nosso futuro colectivo.

Nas hostes socialistas houve quem fizesse ouvidos de mercador e desvalorizasse as sábias e sensatas palavras do Presidente, curiosamente, as únicas que, dada a sua substância e oportunidade, tiveram amplificação nos meios políticos e sociais, embora na semana anterior tivesse havido um discurso do Primeiro Ministro, que por ser tão surrealista, ninguém nem os próprios socialistas, lhe deram atenção.

Deus queira que o Ano Novo traga aos políticos mais sentido de Estado e da responsabilidade, para que passem a preocupar-se mais com os seus concidadãos e menos consigo próprios e com o seu futuro político pessoal.

Penso que não há lugar a dúvidas que se o Prof. Cavaco Silva estivesse apenas preocupado com a sua reeleição, dificilmente teria feito o discurso realista e incómodo que fez no dia 1 de Janeiro, ao longo do qual enumerou em síntese, todos os graves problemas de Portugal, lembrando as obrigações e deveres de todos, cidadãos, instituições e classe política.

Um século volvido após a instauração da República, ao contrário do que seria expectável, vemos o país mergulhado numa crise económica e social grave, e porventura muito pior do que isso, numa crise de valores éticos e morais, facto que me leva cada vez mais a ter sérias dúvidas sobre um certo republicanismo, socialista e laico, que no meu entender não deve ter um saldo muito positivo, ao fim destes cem anos de regime, a menos que as pessoas considerem progressos republicanos, o casamento dos homossexuais, a liberalização do aborto, a eutanásia, encapotada com outra nomenclatura, o divórcio na hora, as leis do trabalho que não promovem nem protegem os direitos da família e qualquer dia, quiçá, mesmo antes do que pensámos, a adopção de crianças por homossexuais.

Enquanto as minorias se movimentam sub-repticiamente, nos labirínticos corredores do poder, para impor à maioria, os seus interesses, conseguindo dar-lhes força de Lei, essa imensa maioria é submetida aos mais incríveis exercícios de diversão, para desviar as atenções da essência das coisas, para evitar que se realizem os grandes debates nacionais que se impunham, para desmobilizar e desmotivar qualquer tentativa de organização de iniciativas de cidadania que possam por em causa os intentos dos grupos de manobradores, também conhecidos por lobbies, uma designação mais ténue, para aparentar uma certa legitimidade.

Esta semana foi entregue no Parlamento uma petição com mais de 90 mil assinaturas de cidadãos portugueses, ao que se sabe, a maior da História da Democracia em Portugal. Para além do objectivo dessa petição e das considerações técnico-jurídicas, aduzidas pelos mais distintos constitucionalistas, julgo que há um facto político incontornável que os partidos da esquerda querem sufocar, impedindo que a vontade de mais de 90 mil portugueses seja democraticamente respeitada. E só foram esses, porque a petição foi concretizada num tempo recorde. É triste ver que aqueles que apregoam a Liberdade aos quatro ventos, arvorando-se nos arautos dos direitos dos cidadãos, serão os primeiros a rasgar a expressão da sua vontade, ou não será uma petição com quase 100 mil assinaturas, uma espécie de pré-referendo?…

Nunca como agora se falou tanto de cidadania e simultaneamente, nunca como hoje, a cidadania foi tão desvalorizada e travada no uso das suas liberdades, direitos e garantias.

É justamente por isto que considero imprescindível ao desenvolvimento de Portugal, a criação de regiões, com órgãos políticos que tomem a seu cargo, as decisões que implicam com o seu destino e governo regional, abrindo a franjas mais amplas da população, a possibilidade de participar e assumir responsabilidades na sua organização e gestão político-administrativa.