Opinião Victor Dias – Memorial do congresso

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Mafra acolheu um dos mais interessantes congressos do PSD que eu segui, por vários meios, e que me ajudou a clarificar algumas ideias sobre certas figuras. Fiquem os leitores descansados porque não me estou a referir ao militante das Caldas, cuja intervenção, aliás, muito apreciei, quer na forma, mas sobretudo, no conteúdo, enfim, foi um grande momento de televisão que pôs os jornalistas, em especial os analistas e comentadores, a babarem-se de contentamento, porque tiveram ali um prato forte, para destilar toda a sua displicência em relação ao meu partido. Se são felizes assim, o que havemos de fazer? Nada, é claro, são livres, graças a Deus!…

No primeiro dia de trabalhos, sábado, as coisas, a meu ver, até correram bastante bem, com algumas intervenções de grande qualidade, carregadas de substância política, expressando uma vitalidade partidária que há muito não se fazia sentir no seio do PSD.

Confesso que gostei particularmente da intervenção de Manuela Ferreira Leite, do mesmo modo que ouvi com muito interesse, a análise, sempre perfeita, de Marcelo Rebelo de Sousa, o grande pensador português, a quem os profissionais dos média quiseram fazer líder à força, mas a quem ele, teimosamente, no seu melhor registo de voz da consciência nacional, contrariou a todo o transe. Este facto leva-me a concluir que o pessoal da comunicação social, gosta de boa conversa e via em Marcelo, mais do que um bom, eventual, Primeiro-ministro, um prato forte para notícias e comentários. Houve momentos, ao longo do discurso do professor, em que fiquei confuso, não sabendo se era sábado ou domingo, à noite. Seja como for, não posso deixar de citar Belmiro de Azevedo e concordar que Marcelo tem sempre, uma dúzia ou mais, de ideias, de respostas ou teorias, para qualquer matéria, e todas excelentes, é brilhante, diria até, genial, mas líder do PSD ele não quer ser. O seu horizonte é Belém – nunca se sabe!…

Pedro Santana Lopes foi a desilusão de Mafra e, na minha modesta opinião, cravou os seus pés, de barro moldados, com chumbo do mais perfurante, comprometendo o seu futuro político-partidário, sendo autor de uma regra populista e inadmissível que não joga nada bem com o seu passado de afirmação de Liberdade. Logo ele, o “enfant terrible” do PPD/PSD que sempre contestou as lideranças e expressou, em total e merecida Liberdade, tudo quanto lhe ia na alma, mesmo os maiores disparates, sim, porque o direito ao disparate, também faz parte do exercício da Liberdade de expressão.

Não sou capaz de entender, como é que um homem que sempre invoca, e muito justamente, a sua ligação e inspiração pessoal, ao maior ideólogo português da Social Democracia, Francisco Sá Carneiro, não tenha sido capaz de perceber que a Liberdade, mesmo antes da Democracia, era a sua maior paixão e o valor fundamental, pelo qual ele sempre se bateu tenazmente.

Pensei que tivesse sido um equívoco, ou talvez uma precipitação, mas fiquei ainda mais desiludido, quando ouvi Santana Lopes, nos momentos e dias, a seguir ao congresso, reafirmar a sua convicção, na maior enfiadela de pé na poça, da sua vida política e do partido que ele tanto gosta. Não percebo, nem aceito que se invoque os estatutos de outros partidos portugueses e estrangeiros, socialistas, comunistas ou de direita, para tentar defender o indefensável.

Liberdade

O PPD/PSD sempre se orgulhou de ser um espaço de total e incondicional afirmação do livre pensamento e de crítica desassombrada e insubmissa que nunca se regeu por lógicas de navegação à vista, marcadas por disputas obstinadas do poder que obrigassem a impor tento na língua aos seus militantes, ainda que estes tendam para o disparate, é a Liberdade.

O PSD é o partido da Liberdade, da verdade, do debate de ideias e até do confronto do contraditório, sem reservas mentais, instrumentais ou estatutárias. No dia em que não for assim, deixará de ser o PPD/PSD e deve chamar-se outra coisa.

Lamento, mas lamento mesmo profundamente que uma pessoa com o passado de Santana Lopes, tenha sido o protagonista deste triste episódio que pôs o partido a jeito, de o PS e todos os outros partidos de esquerda e direita, lhe caírem em cima, com vantagem óbvia, para o partido do governo, que de mão beijada, arranjou mais um prato cheio, para desviar as atenções e lançar o odioso social para cima de nós, acusando-nos de punir os nossos militantes por delito de opinião. Por mais argumentos que queiram validar, não me revejo em nenhum regulamento que vise agrilhoar direitos fundamentais que não são compagináveis com o texto constitucional da centenária república Portuguesa.

No sábado estivemos bem, em busca da credibilidade perdida e no domingo, deitamos quase tudo a perder. Interrogo-me inclusive que representatividade e legitimidade tinham aqueles congressistas para mexer num valor matricial do nosso passado histórico e no nosso mais importante capital político, como é o valor da Liberdade.

Penso que matérias desta sensibilidade e melindre, só deviam ser alteradas pela via do referendo interno, dando a todos os militantes, o direito de se pronunciarem.

Sempre tive opinião formada de que os congressos, além de serem palco, para o desfile de putativos candidatos a qualquer coisa, nem que seja um lugarzito num órgão de segunda, também podem servir para agitar as massas, manipular os seus instintos e levá-las para lugares onde não reina propriamente o bom senso e a racionalidade. É por isso que eu não me dou em grandes ajuntamentos, onde nem sempre sabemos muito bem, o que pode acontecer e corremos o risco de perder a nossa identidade, e esse é um risco que eu não aceito correr de modo nenhum.

Tenho de estar preparado para que, um dia destes, me queiram expulsar do meu partido, já que me recuso em absoluto a acatar semelhante regra de silêncio, se bem que, ninguém concretizou, nem quis, que tipo de infracção configura a gravidade da falta que pode levar às sanções sufragadas em congresso. Será que o PSD vai ter uma comissão de censura?… Ou vai entregar as questões disciplinares a um comité central?…

Sejamos lúcidos e sensatos e não embarquemos em tentações, mais ou menos, monolíticas cujo único resultado provável é o empobrecimento do debate e, quiçá, a perda de contributos valiosos. Convém que todo o partido entenda que a diversidade de opiniões, a diferença de modos de entender e querer levar à prática, a social democracia e o vínculo à consciência pessoal de cada um, são valores que fazem parte do património genético do PSD e que isso não pode ser abolido por decreto, por que é, a meu ver, o seu oxigénio.

Ainda bem que nenhum dos candidatos a líder assina por baixo deste disparate que pode ferir de morte o meu partido, o que para mim significa que, qualquer deles, uma vez eleito, vai de imediato repor a tradição e a regra que é a nossa imagem de marca e que nos distingue claramente de todos os partidos portugueses, Liberdade, Liberdade, Liberdade!…