Opinião: Victor Dias – O Natal e o Direito ao Amor

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O Natal aí está, com todos os seus excessos consumistas, com todos os apelos de uma sociedade que teima em não parar para meditar e corre, num ritmo frenético, para lugar nenhum, perdendo-se na vertigem do ter, em detrimento do ser. Um ser que se queria feito de amor, solidariedade, de valores éticos e morais, de cidadania com sentido da responsabilidade social que sabe ocupar o seu lugar, na família, na comunidade onde vive e, numa visão mais abrangente, na sociedade a que pertence.

Para lá das palavras bonitas, de circunstância e mera conveniência social, não raras vezes, ditas com intenções cosméticas, para dar aos outros uma imagem de nós próprios que esconde a nossa verdadeira face.

Temos de meter a mão na consciência e interpelá-la profundamente, para nos questionarmos se temos tratado os nossos semelhantes, com a dignidade que a nossa própria condição humana exige. A dignidade do próximo, do nosso semelhante, é tão merecedora de respeito e consideração, quanto a minha ou a sua…

Se olharmos, com os olhos do coração, para as crianças, para os velhos e para todos aqueles que, por uma razão ou outra, se encontram numa situação de vulnerabilidade, de maior exposição aos riscos da prepotência, da arrogância, dos abusos de poder, do desamor e do abandono, não poderemos nunca ficar calados e muito menos quietos, sob pena de nos tornarmos tão cruéis, quanto os seus opressores.

De entre estas pessoas que sofrem as agruras de uma sociedade cada vez mais indiferente e cruel, as crianças e os velhos constituem os grupos mais desprotegidos.

Curiosamente nesta quadra do Natal, em que, em princípio, seria de esperar um rebate de consciência que levasse algumas famílias a aproximar-se um pouco dos seus idosos, tratando-os com um pouco mais de respeito e algum carinho, o que se vai tornando numa arrepiante normalidade é o abandono e a solidão.

Os hospitais conhecem bem esta realidade e acabam por ser, cada vez com maior frequência, transformados numa espécie de “terminal”, onde algumas famílias, literalmente, despejam os seus velhos, como quem deixa ficar uma “trouxa de trapos”. Todos sabemos que quem é capaz de cometer uma crueldade desta natureza, não tem qualquer pudor em maltratar aqueles a quem devia respeito, amor e gratidão, digo gratidão, porque entendo que não devemos abolir esse sentimento do quadro dos nossos valores e porque acho que os nossos pais, avós, bisavós e todas as pessoas a quem o tempo pintou os cabelos de branco, são merecedores da nossa gratidão.

A experiência e sabedoria dos mais velhos é um património que não está a ser devidamente valorizado e nem sequer respeitado. O lugar dos idosos na família e na sociedade tem de ser encarado como uma instituição, com trabalho realizado, com provas dadas, com sabedoria e tempo disponível, para ensinar aos mais novos, tudo quanto a vida lhes ensinou e nenhuma escola ou universidade pode dar aos mais novos.

O direito ao amor é, a meu ver, um direito natural, tão universal e inalienável como o direito à vida, tendo de ser reconhecido e salvaguardado para que seja garantido a toda a pessoa humana, independentemente da sua idade, sexo, cor da pele, extracto social, credo ou opções de vida.

Sem medo das palavras

A condição social do idoso está fragilizada e os estigmas sobre a velhice ameaçam, muito seriamente, transformá-lo, num ser descartável, num fardo ou num peso morto. Talvez algumas pessoas se impressionem com a crueza desta minha análise, mas já basta de paninhos quentes, é tempo de encararmos a realidade e “…pôr os pontos nos is…”, sem medo das palavras, por mais que elas nos incomodem. Apesar de vivermos em plena era da sociedade da informação e do conhecimento, continuamos a manter atitudes e comportamentos que evidenciam um atraso nas mentalidades que nos remete para a idade média, época em que os velhos eram levados para os montes e florestas, para aí serem abandonados. Agora a única diferença é que são levados para os lares ou para os hospitais, onde são igualmente abandonados. Todos sabemos do esforço que os serviços sociais dessas instituições empreendem, para que os familiares visitem os seus entes idosos, ou pelo menos, os vão buscar uma vez ao ano, mais que não seja para passar uma quadra tão nostálgica para eles, como é o Natal.

O próprio idoso, quando consciente, desse estigma, sente-se muitas vezes ultrapassado, acha que já teve a sua época e que agora não serve para mais nada, acabando por aderir à negação social do direito à existência, facto que, em muitos casos, acelera processos de auto-anulação que conduzem a estados de depressão grave, com consequências dramáticas, ao nível da auto-estima e da perda de sentido para a sua própria vida.

Invoco como exemplos positivos e dignos de serem referenciados, todos os idosos que conheço e que vivem no seio de uma família, onde recebem carinho e amor, onde a sua experiência e sabedoria conta e é útil, onde não os sujeitam a processos de infantilização, onde são respeitados e considerados, onde o seu contributo válido é valorizado, em vez de ser dispensado, onde a sua segurança, saúde e bem estar, fazem parte das preocupações gerais da família, e que são velhos felizes, cuja alegria de viver, contagia todos à sua volta.

Essas famílias estão apenas a ser coerentes com os seus princípios e valores, estão a educar através do seu exemplo, os mais novos e sabem que por isso, não vão ter qualquer benece do Estado, ou reconhecimento da sociedade, mas têm a certeza que estão a cumprir com o seu dever, de Amar todos os seus membros, independentemente da sua idade, da sua condição actual, mas tão somente porque sabem fazer do núcleo familiar, uma comunidade de Amor, onde há Natal sempre.

Meditemos nisto e, por certo, vamos encontrar um sentido para este e para todos os natais…