Opinião: Victor Dias – O PSD em contra-relógio…

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O país inteiro, militantes, simpatizantes e eleitores do PSD incluídos, assiste impaciente e, por vezes, com estupefacção ao marasmo em que se encontra suspenso e a flutuar na espuma dos dias, o maior partido político português.

Na altura em que Pinto Balsemão procurou abanar as consciências afirmando que o PSD caminhava para o suicídio colectivo, muitos foram os que saíram imediatamente a terreiro para exorcizar tamanha heresia partidária.

Infelizmente o primeiro militante do PSD tinha razão ao lançar o seu aviso à navegação. Uma razão que não decorre de quaisquer conjecturas ou exercícios, mais ou menos conseguidos, de teorias da conspiração e de jogos de bastidores, mas que lhe é conferida pelos factos. E como todos sabemos, os factos doem, mas derrubam sem grande resistência, os argumentos que se baseiam sobretudo na retórica.

Como já declarei várias vezes, sou social-democrata convicto e militante do PSD, assumindo como minhas principais referências históricas, Sá Carneiro e Olaf Palm, pela sua visão inter-classista e moderna da sociedade, onde a ascensão social é preconizada como uma consequência do esforço e mérito de cada pessoa e do seu contributo no desenvolvimento harmonioso e solidário da comunidade em que se integra, aos vários níveis, local, regional e nacional, consubstanciado numa cidadania esclarecida, socialmente responsável e humanamente solidária.

Escolha vital

É na minha qualidade de cidadão português e militante do PSD que vejo com grande preocupação o desnorte em que o meu partido se encontra. Entendo que um partido político pode até viver mergulhado numa certa indefinição de orientação ideológica e de estratégia, na medida em que as suas bases não cedem facilmente à sedução dos discursos de conjuntura, impulsionados por lógicas pessoais de conquista do poder. Essas bases, militância e simpatia intrínseca, mantêm-se fieis ao ideário fundador do PSD, constituindo sem sombra de dúvida, o seu maior e mais valioso capital, marcando sempre uma presença activa nos momentos cruciais, facto que é sem dúvida a sua maior riqueza e tem sido, de algum modo, o seu sustento.

Se é verdade que o PSD se pode dar ao luxo de uma certa tibieza, sem se afirmar claramente se é carne ou é peixe, em matérias nas quais, a meu ver, devia assumir posições mais firmes e transparentes, como por exemplo, aconteceu com a liberalização do aborto e agora com o “casamento” entre homossexuais, matérias em que foi demasiado escorregadio, já não pode arrastar-se por muito mais tempo, sem, de uma vez por todas, resolver capazmente, o problema da liderança.

O problema da liderança do PSD é, no meu modesto entendimento, de uma gravidade preocupante que poucos têm encarado com a seriedade e frontalidade que essa gravidade exige. Uma situação crónica e aguda que não decorre apenas do facto de estar em risco a sua própria sobrevivência como partido que congrega pessoas com uma matriz de pensamento político de base comum, sem menosprezar as sensibilidades diversas, mas sobretudo como força política representativa de uma certa forma de pensar e estar na sociedade portuguesa, ocupando um espaço que na visão panorâmica do nosso espectro político se designa por centro. Um enquadramento panorâmico da política que, como todos sabemos, é hoje muito disputado pelo próprio PS e pelo CDS/PP, tal é a certeza de que é nesse espaço que se ganham eleições.

Não estou convencido do interesse em realizar um congresso antes das directas, mas não tenho dúvidas de que se impõe, com toda a urgência, promover a realização de eleições para escolher um líder. Uma escolha que deve ser precedida de um esclarecimento, o mais alargado e eficaz possível, por forma a que os militantes, mais do que conhecer os candidatos, fiquem a conhecer bem o seu pensamento, projecto e programa político para a liderança do partido.

Até agora, o único militante que se assumiu e tem mantido o seu propósito de disputar as directas é Pedro Passos Coelho, sem que nas hostes aparelhísticas ou das bases, surja alguém a arrostar uma candidatura, facto que em nada contribui para criar condições favoráveis a um debate saudável e democrático. Seria muito bom que houvesse mais do que uma candidatura e, principalmente, que se entretanto aparecer alguém, para legitimamente disputar as eleições, o faça com espírito de serviço e por convicção, mas nunca para servir interesses instalados e lógicas de manutenção do aparelho, travando o tão necessário rejuvenescimento do PSD.

O Partido Social Democrata é, cada vez mais, imprescindível à Democracia e à Liberdade, valores que por várias e conhecidas razões, vão ficando, a cada dia que passa, mais fragilizados, basta pensarmos os condicionalismos à governação de Portugal, impostos por organismos e instituições internacionais, estejam elas sediadas em Bruxelas, Estrasburgo, ou sejam entidades privadas que lançam sentenças asfixiantes das economias nacionais, como acontece com os relatórios das agências de rating, não deixando qualquer hipótese para margens de erro ou incompetência governativa.

Por tudo isto considero que a escolha do líder do PSD é um assunto de vital importância, quer para o próprio partido, mas igualmente ou, porventura até mais, para Portugal, razão pela qual vejo o movimento implacável dos ponteiros do relógio a correr contra o PSD. É bom que os dirigentes nacionais tenham consciência disso.