Opinião Victor Dias – Refundar o PSD – para quê?!…

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Alguns dirigentes do PSD, todos eles com responsabilidades acrescidas em relação aos simples militantes de base, como eu, têm saído à praça pública, para esgrimir o seu notável pensamento político. Um pensamento que apesar de notável, porque é impossível não ser notado, não é, por via disso, um pensamento que possamos apelidar de brilhante, sobretudo se atendermos à forma, ao tempo, ao conteúdo e efeitos.

O ideário Social-democrata continua, a meu ver, mais actual, adequado e necessário do que nunca, contemplando uma base ideológica, imprescindível à formulação do projecto político, pelo qual Portugal clama há décadas.

A miopia de alguns governantes e actores políticos em geral não lhes permite ver, com a cristalina clareza que se estende diante dos seus olhos, que do ponto de vista da concepção política da sociedade, a Social Democracia é, indubitavelmente, a melhor resposta às necessidades concretas do país, sejam elas de natureza estrutural, como efectivamente o são e com grande profundidade, sejam de âmbito mais conjuntural, como se tem verificado nos últimos anos, em que a incompetência, ineficácia e ineficiência dos governos do PS, nos tem brindado, invocando a toda a força e aos quatro ventos, a panaceia da crise internacional, para infelicidade de todos nós, mormente, da classe média e dos pobres.

O projecto político de sociedade que o PSD protagoniza elege como valores fundamentais, a Liberdade de Expressão, de iniciativa, de movimentos e de crítica. Numa Democracia que se quer saudável, a crítica é a massa que lhe dá consistência e que obriga os seus artífices, a questionar-se permanentemente, mesmo antes de serem legitimamente questionados, num processo de exercício constante de uma cidadania responsável, quer se esteja, transitoriamente, em representação dos outros concidadãos, num qualquer cargo público, ou se esteja do lado da maioria ou da minoria, que constituem o universo de onde surgiu o sufrágio que conferiu legitimidade à posse desses cargos, sejam eles de natureza política ou social.

Notáveis e notórios

Era altamente positivo que os dirigentes do PSD tivessem consciência de que no seu partido, essa massa crítica existe, está mais consistente do que nunca e, para desencanto desses barões, começa a estar cada vez mais farta e “divorciada” dessa elite, com uma matriz tipicamente, sulista, elitista e, para o meu gosto, demasiado neoliberal.

Entendo que hoje existem dois PSD’s que é preciso refundir, em vez de refundar. Existe um PSD do directório nacional e de umas dúzias de notáveis que se vão procurando manter à tona dos acontecimentos, deixando-se ir a reboque da agenda política, ora do PS, ora do CDS/PP, ora dos sindicatos dos professores ou de outras corporações ruidosas, ou pior do que isso, vindo para a praça pública, fazer o triste espectáculo de dar bicadas uns nos outros, numa disputa fratricida de uma liderança amaldiçoada, cuja contestação e derrube está sempre anunciada.

Nós os militantes de base, aqueles que damos as vitórias e que nos entristecemos com as derrotas, que aconteça o que acontecer, nunca deixaremos de ser social democratas, que nunca deixaremos de amar a Liberdade e querer a Democracia e a Justiça, mas para todos, nós os que fazemos do PSD o maior partido político português, somos o outro PSD, aquele que espera pacientemente por uma classe dirigente ajuizada, sensata e com espírito de serviço a Portugal, em primeiro lugar, e ao PSD, como forma de servir o país, na convicção de que o projecto social democrata é o melhor, para tirar Portugal desta precipitação para o abismo.

Pelo facto de eu ser um humilde e singelo militante de base, não deixo de pensar que as elites são necessárias, bem pelo contrário, hoje são mais úteis e preciosas do que nunca e o país só se poderá desenvolver e sair desta gravíssima crise, apostando nas suas elites. Mas essas elites têm que dar provas da sua plena seriedade, competência e credibilidade, para que possam inspirar nos seus pares, concidadãos e comunidades a que servem, total e incondicional confiança.

Temos de pôr os olhos na nossa elite científica que muitas alegrias nos têm dado, desenvolvendo um trabalho sério e profícuo, conquistando desse modo, o reconhecimento internacional e dando um fortíssimo contributo para a afirmação de Portugal no Mundo. Do mesmo modo podemos pôr os olhos na nossa elite cultural e artística, com imensos casos de músicos, pintores, escritores, cineastas e intelectuais que dão do nosso país uma imagem de excelência.

É para mim, absolutamente, desejável que a nossa classe política tome esses notáveis e brilhantes exemplos, para que compreenda os valores autênticos das verdadeiras elites que procuram superar-se, ir mais além, sempre na senda do bem comum, de conhecimento, arte ou cultura para todos.

O que o PSD precisa é reencontrar-se com a sua base militante, com as suas fundações, com os seus alicerces sociais, para refundir a sua essência e fazer emergir uma classe dirigente que não passe a vida atrás de um protagonismo mediático, de uma qualquer vã glória de mandar, sabendo de ante mão que esse poder será de muito curto prazo.

Gostava de ver no PSD, uma elite dirigente de alto perfil e de alto rendimento, uma elite dirigente que trabalhasse afincadamente no projecto social-democrata, sem cedências ao facilitismo, sem embarcar em acordos de circunstância e de utilidade duvidosa.

Prefiro uma elite social democrata que seja uma oposição de elevada qualidade, atenta, meticulosa, organizada, disciplinada, hierarquizada, que apresente propostas alternativas que inspirem confiança aos cidadãos e que nunca se cale, perante a injustiça social, perante a promiscuidade pública, perante as ingerências de poderes que deviam estar separados, ainda que isso signifique, ter de cortar na própria carne.

À elite do PSD, do meu partido, exijo elevação, exijo um discurso político clarificador para todos, exijo alta competência política, relevância social com provas dadas, um quadro de valores pessoais que se identifique totalmente com o ideário da social democracia e um amor, incondicional e inquestionável, a Portugal, sentimento de pertença que tem faltado a muitos líderes dos partidos portugueses.

Sinais

O candidato a líder do PSD que conseguir este desiderato de refundir a grande base sobre a qual se eleva o PSD, dará provas que pertence a uma elite superior e será merecedor do meu apoio, porque saberá com toda a certeza, levar consigo, para a nova classe dirigente, pessoas merecedoras de pertencer a essa elite, eregida a partir do apoio maioritário da base. Tem sido este princípio basilar da organização nacional do partido que tem feito dele, a maior força partidária do poder local, detendo há várias décadas, a presidência maioritária das freguesias e dos municípios portugueses, numa clara demonstração de um enorme entendimento e confiança, entre as estruturas concelhias e as suas elites locais.

Não se pode querer unir o partido, tomando como elemento de união uma pessoa, sem que essa pessoa apresente primeiro o seu plano unificador, a sua estratégia de congregação e o seu projecto de liderança, até porque se isso não for feito, parte-se logo de um pressuposto terrivelmente errado que só tem dado maus resultados, falo obviamente da fulanização excessiva do processo de sucessão.

Confesso que gostei do sinal que os deputados do PSD deram em Espinho, durante o recente encontro do grupo parlamentar, fazendo um exercício de contenção, disciplina e concentrando todos os seus esforços e atenções, no debate dos grandes problemas do país e convidando personalidades destacadas da nossa sociedade, para expressarem livremente o seu pensamento, sobre vários temas da agenda política actual. Reconheço-lhes o mérito e tiro-lhes o chapéu, porque é assim mesmo que conquistam o respeito e a confiança dos portugueses.

A minha esperança está numa nova elite, recrutada entre os mais jovens quadros do partido, eventualmente, sem grande experiência política, nas andanças dos corredores do poder e dos fóruns de oposição, mas que não enferma de vícios e defeitos de formação, velhos e muito nocivos. Acredito que o PSD vai chegar a um ponto de equilíbrio, para refundir a sua classe dirigente, abrindo espaço ao sangue novo, a uma maior energia criativa e inteligência empreendedora, temperada por uma presença de pessoas, sensatas, experientes e detentoras de um grande sentido de Estado e da sua responsabilidade perante Portugal.

Este é, do meu ponto de vista, o tempo de reflectir!…

 

Victor Dias