“Eu e os políticos” – Um livro “maldito”!?…

0
302
- Publicidade -

O título que José António Saraiva deu ao seu livro poderia muito bem ser, igualmente, “Os políticos e eu”, o que aparenta ser a mesma coisa mas, a meu ver, não é…

O autor faz revelações sobre quarenta e duas pessoas que em certos casos são cruéis e traiçoeiras.
Aliás, o próprio reconhece e escreve em jeito de “mea-culpa” – “Um livro deste tipo só tem sentido se o autor se dispuser a contar tudo o que ouviu dos seus interlocutores, e relatar tudo a que assistiu, e que julgue ter interesse público.

Assim, como o leitor reparou, há no texto revelações duras e outras que roçam a violação da privacidade. Mas, insisto, é o preço a pagar por uma iniciativa como esta…”, sublinha o antigo jornalista que dirigiu o “Expresso” e o “Sol”, nos últimos 23 anos da sua carreira.

São 264 páginas de um livro que pretende fazer as delícias de quem gosta de fofocas e mexericos, mesmo daqueles que retratam factos e episódios protagonizados por políticos com quem o autor se cruzou ao longo da sua vida profissional.

Como seria expectável, um livro que devassa a vida privada e relata conversas e pormenores íntimos revelados por pessoas que embora não tenham apelado expressamente à reserva ou sigilo, por parte do seu interlocutor jornalista, não eram certamente para revelar nunca, mas muito menos agora.

Não consigo, por muito esforço que faça, descortinar onde está o interesse público das inconfidências que em certos casos, despem na praça pública, algumas das mais mediáticas figuras da vida política e social portuguesa.

O livro “maldito” de José António Saraiva, publicado pela Gradiva, tem do meu ponto de vista, pelo menos a virtude de lançar um alerta geral a toda a classe política, tornando definitiva a divisa que não se pode confiar nos jornalistas.

E quem arrisca confiar, pode mais tarde ou mais cedo, arrepender-se amargamente. Nesta perspectiva, este livro acaba por cumprir uma função, assumindo a dimensão de um manual de como não se pode relacionar com os jornalistas, o que nunca se deve dizer, confidenciar ou deixar cair, no calor de uma conversa, no meio de um repasto, ou mesmo à mesa do café.

A adensar a muita polémica que o livro está a gerar, e que se tem tornado na melhor publicidade possível, acresce o facto de Pedro Passos Coelho ter anunciado o compromisso que assumiu com o autor de apresentar o livro.

Talvez este facto leve muita gente a pensar, que se Passos Coelho vislumbrou algum interesse no livro, por certo ele terá motivos de interesse capazes de despertar a curiosidade do grande público, sem provocar em ninguém, qualquer sensação de “voyeurismo”.

Acontece porém, que o líder do PSD deu o dito por não dito, e embora tenha confirmado a sua presença após uma leitura atenta da peça, ao ver-se envolvido no turbilhão de críticas que o livro despoletou, nos média e nas redes sociais, apressou-se a tirar o cavalinho da chuva e pediu escusa do compromisso, levando o autor e a Gradiva, a cancelar o seu lançamento formal.

José António Saraiva puxa pelos galões e exibe argumentos que podem convencer muitos leitores, afirmando: – “Poucas pessoas terão tido, como eu tive — pelos lugares que ocupei — acesso privilegiado aos principais actores políticos ao longo de 35 anos, materializado em inúmeras conversas privadas.

Aqui os políticos aparecem como são (ou como eu os vi) na intimidade, fora da pose conveniente que a presença pública implica. No momento em que me retiro de cargos executivos no jornalismo, senti a necessidade de partilhar com os interessados essas vivências. Seria porventura egoísmo guardá-las só para mim e para o meu círculo próximo”.

Ele e os políticos afinal nunca foram leais, nunca foram “amigos” e tão pouco confidentes.
Na verdade, depois de ler o livro, a conclusão a que chego, é que muitos políticos quiseram utilizar a suposta proximidade ou “amizade” com o jornalista, para o tentar instrumentalizar, e levá-lo a escrever coisas simpáticas a seu respeito, ou pelo contrário, a ser duro, corrosivo ou implacável com os seus adversários. O resultado aí está, em livro.

Diante tamanha publicitação graciosa, não tenho grandes dúvidas que o livro vai ser um “best seller” e o seu sucesso de vendas vai manter-se por muito tempo, tendo nos políticos, precisamente, os seus mais fiéis leitores. Mas já duvido muito que Saraiva consiga ter uma vida social fácil, pelo menos em Lisboa.

Não posso encerrar esta minha crónica, sem declarar, enquanto cidadão que ama a Liberdade, que refuto inteiramente qualquer forma de censura, e como tal, reconheço a António José Saraiva, o direito de escrever o que muito bem entender, até um livro como este. Claro está, que embora refute veementemente a censura, também entendo que ninguém está imune à crítica.

Estranho, isso sim, é que alguns figurões tenham vindo a público, tecer loas à moralidade, aos bons costumes e à ética, rasgando as vestes, como se os seus telhados de vidro estivessem a salvo. Enfim!…
Não é bonito, em vez disso, é feio, muito feio, mas é uma lição de vida sobre a confiança.
É a Liberdade caros leitores, é a Liberdade!…

Victor Dias

- Publicidade -