Pássaros de asas cortadas

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Interrogo-me com frequência sobre o futuro que se perspetiva para os jovens do nosso País no dealbar deste novo milénio. Diz-se – e quem o diz fá-lo com ar ufano – que Portugal dispõe hoje da mais preparada das gerações de portugueses, grande parte deles saídos das universidades lusas com preciosos saberes na cabeça e excelentes diplomas nas mãos.

Só que esses jovens portugueses, quando concluem a sua formação académica e mergulham no mercado de trabalho em busca de ocupação para os saberes adquiridos, são confrontados com a mais dura das atuais realidade da vida: não há empregos compatíveis com a formação que obtiveram e, quando os encontram, o que os seus empregadores têm para lhes oferecer são salários baixos, muito baixos, trabalho precário e escassas perspetivas de carreira.

Todos sabemos que os tempos que correm não são os melhores para quem procura um emprego para a vida. O funcionalismo público, a banca, ou as grandes indústrias, que eram o eldorado de outras épocas, oferecem agora soluções profissionais inseguras e instáveis, que em nada contribuem para esse mínimo de estabilidade que todos almejamos na vida.

Os jovens trabalhadores, tal como os que os antecederam no mercado de trabalho, são agora convidados a adaptar-se continuamente a esses novos desafios, uma adaptação cuja complexidade parece que nem todos ainda compreenderam e assimilaram.

Deriva da emigração

Começa aqui a deriva da emigração. Acontece que os jovens que emigram são, na generalidade, os que mais predispostos se encontram para aceitar e assumir os desafios que uma vida além-fronteiras sempre comporta; são os mais capacitados para romper com a rotina que os rodeia por cá e para ensaiar novas experiências profissionais; são os que mais acreditam no seu próprio potencial e na sua capacidade de interação com diferentes realidades sociais, culturais e humanas e delas podem e desejam fazer parte.

Aos que ficam – a maioria, afinal – por não terem sido capazes desse golpe de asa, herdado de sucessivas gerações de emigrantes, porque são forçados a acomodar-se a uma realidade nacional que os menoriza, pressionados por uma comunidade que os amarra, ou porque não conseguem ultrapassar as duras exigências que a busca de outras paragens lhes impõe, tentam construir aquém-fronteiras o futuro possível.

Ninguém lhes pode imputar a menor responsabilidade por essa opção: na verdade ela é filha dileta e direta das condições de vida que atualmente são impostas aos portugueses – a todos os portugueses – por uma anquilosada clique política que administra o País como se este fosse uma coutada pessoal, ou do seu grupo, que não tem uma visão clara, série e honesta do futuro (e que nem sequer parece conhecer minimamente o nosso passado comum!), que se preocupa apenas com a sua própria perpetuação nos cómodos lugares que ocupa, e que destrói, irresponsavelmente, o património civilizacional dos portugueses, que aniquila o seu potencial de realização e de construção de um futuro melhor – e que transforma os jovens portugueses que ainda restam em verdadeiros pássaros de asas cortadas que, por isso mesmo, não podem, mesmo que o queiram, levantar voo para se realizarem e para e serem cidadãos verdadeiramente livres e felizes.

N.A. – O título desta crónica foi “roubado” ao nome de um filme realizado por Artur Ramos em 1963.

Joaquim de Matos Pinheiro

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