Preito aos Combatentes

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Guerra Colonial
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Foi a partir do dia 13 de Abril de 1961 que centenas de milhar de jovens portugueses, chamados ao cumprimento do serviço militar, obedeceram à ordem que os mandava seguir para Angola, rapidamente e em força e participaram, ao longo de mais de catorze anos, na chamada guerra colonial.

Na verdade, o conflito tinha começado cerca de dois meses antes, na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961, quando cerca de duzentos homens, conotados com o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), armados com catanas, desencadearam uma série de ações subversivas na cidade de Luanda.

Uma parte destes homens montou uma emboscada a uma patrulha da Polícia Militar, tomou-lhe as armas e munições e ensaiou um assalto à Casa da Reclusão Militar com o objetivo de libertar os presos alegadamente políticos ali colocados.

Um segundo grupo dirigiu-se à cadeia da PIDE, no Bairro de São Paulo, ao mesmo tempo que um terceiro se encaminhou para a cadeia da 7ª Esquadra da PSP, locais onde se encontravam outros presos.

Apesar do aparato destas ações, nenhuma delas alcançou o sucesso esperado, antes se saldando pela morte de quarenta guerrilheiros, além de seis agentes da Polícia de Segurança Pública e um cabo do Exército Português – o primeiro militar luso vítima da guerra que então se prenunciava.

A eclosão do movimento armado contra a presença de Portugal em Angola só viria a concretizar-se, no entanto, em 15 de Março de 1961. Nesse dia hordas de guerrilheiros chacinaram centenas de homens, mulheres e crianças, negros, brancos e mestiços indefesos, em povoações e fazendas do norte do território – uma barbárie que ficou para a história como o primeiro ato de um conflito que cedo se estendeu a Moçambique e à Guiné.

A respeito desta guerra, o general norte-americano Bernard E. Trainor, professor na Universidade de Harvard, escreveu, no prólogo ao livro Contra Insurreição em África – o modo português de fazer a guerra, da autoria de outro prestigiado historiador americano, o oficial-aviador John P. Cann, doutorado em Estudos de Guerra pelo King’s College, da Universidade de Londres, que Portugal foi a primeira potência colonial a chegar a África e a última a sair. Enquanto outros estados europeus garantiam a independência às suas possessões africanas, Portugal decidiu ficar e lutar. Constitui um feito notável que o tenha conseguido com êxito nas três frentes de Angola, Guiné e Moçambique, em especial para uma nação de recursos tão modestos. O Dr. Cann chama a atenção para esta importante campanha de contraguerrilha, ofuscada pelo envolvimento dos Estados Unidos no Vietname e hoje largamente esquecida pelos eruditos não portugueses. O autor afasta a ideia convencional de não ser possível tal espécie de campanha ter sucesso, principalmente sustentada por um país com carências ao nível dos efetivos, da riqueza e da experiência.

Nesta mesma linha John P. Cann sustenta no seu livro que, numa “guerra de libertação nacional”, como a que Portugal enfrentou em África, a vitória pode ser conquistada militarmente, mas o mais provável é ser conseguida através de um compasso de espera, durante o qual o governo ganha credibilidade através do exército e de iniciativas sociais, e leva por esse meio os guerrilheiros a negociar. Conseguir fazê-lo não é proeza pequena, numa guerra em que os guerrilheiros procuram minar totalmente qualquer autoridade. Os militares portugueses conseguiram uma vitória militar clara em Angola, um impasse digno de crédito na Guiné e, com alguns meios adicionais e uma liderança forte, poderiam ter readquirido o controlo da zona setentrional de Moçambique.

Uma guerra travada assim é considerada, de acordo com a terminologia militar convencional, uma guerra de baixa intensidade, e é no espírito desse conceito que o autor afirma que através de uma liderança e orientação imaginativas das campanhas [os portugueses] combateram numa guerra colonial de três frentes, a oito mil quilómetros de casa durante treze anos, cum um limitadíssimo orçamento de defesa.

Terá sido a conjugação destes fatores que determinou a ocorrência de um número proporcionalmente limitado de baixas mortais e de outros danos físicos e mentais nos militares portuguesas destacadas para os três teatros de guerra – sobretudo quando se olha para o que se passou, na mesma época, na guerra em que os americanos se atolavam no Vietname, com o seu interminável cortejo de mortos, estropiados e ex-combatentes seriamente afetados por múltiplas e dramáticas manifestações de stress de guerra.

Apesar disso, a memória dos jovens soldados portugueses que morreram em África, e os dramas pessoais daqueles que de lá regressaram física ou psiquicamente afetados pela guerra que os incidentes de 4 de fevereiro e a ordem de 13 de Abril de 1961 precederam, não devem nem podem ser votados a um injusto esquecimento.

Em inúmeras localidades, de norte a sul de Portugal, têm sido erigidos nos últimos anos singelos monumentos evocativos do sacrifício que esses jovens combatentes foram chamados a fazer pela Pátria, à imagem do que se passou relativamente aos militares portugueses que participaram na Grande Guerra de 1914/18, em África e na Europa.

Para muitos portugueses pode não ser politicamente correto fazer desse delicado tema uma causa nacional. A verdade, porém, é que não haverá, em Portugal, uma família – ou uma freguesia, ou um concelho – que não albergue no seu seio um ex-combatente ou que não conserve na memória a lembrança de um ente-querido que perdeu a vida ao serviço de Portugal ou que, no mínimo, à causa nacional sacrificou a sua juventude.

No concelho da Maia, é importante reconhecê-lo, essa tão merecida quanto justa homenagem aos seus ex-combatentes ainda não foi feita.

É por isso que, no ensejo do quinquagésimo quinto aniversário da eclosão da guerrilha em Angola, aqui se alvitra à Autarquia maiata que repare essa gritante injustiça: ao implantar um singelo monumento numa das muitas praças ou rotundas que estão espalhadas pelo território do município, a Autarquia salda essa dívida, ao mesmo tempo que estará a prestar o preito devido pelos maiatos aos seus concidadãos que participara, nas três frentes da guerra do Ultramar.

Joaquim de Matos Pinheiro

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