Que virtudes poderemos encontrar em Passos Coelho para confiar na sua liderança política?

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As pessoas que vão lendo as prosas que publico em vários órgãos de comunicação social, sabem bem que não tenho tido papas na língua. E sempre que a minha consciência me impele a criticar abertamente o Primeiro-Ministro, não me coíbo desse exercício, que já pratiquei vezes sem conta.

Confesso que embora impulsionado pela pobreza franciscana das propostas e dos líderes que começam a chegar-se à frente, para ir a jogo nas próximas eleições legislativas, tenho procurado reflectir sobre a acção governativa de Pedro Passos Coelho, e á boa maneira portuguesa, o que ressalta á minha análise, são em primeiro lugar, os erros, que a meu ver, foi cometendo ao longo do seu mandato.

Infelizmente, a lógica com que os políticos nos obrigam a pensar, para sustentar a nossa decisão eleitoral, baseia-se cada vez mais, naquela ideia de escolher do mal, o menos.

Teimosia

Hoje, não tenho a certeza que a teimosia seja ainda um defeito de personalidade que não se recomende a um líder político. Principalmente quando a teimosia significa determinação e coragem.

Pedro Passos Coelho foi eleito com outro programa governativo, é certo, mas será que o Primeiro-Ministro tinha outra alternativa, a não ser cumprir direitinho o que a troica nos impunha, segundo uma “check-list” que Fernando Teixeira dos Santos obrigou Sócrates a aceitar, contra a sua vontade?

Presentemente, declaro-me convicto que se não tivesse sido a teimosia de Pedro Passos Coelho, pese embora todo o sofrimento e sacrifícios que tivemos de suportar, correríamos sérios riscos, muito sérios riscos mesmo, de estar a fazer companhia á Grécia, largando mão da pouca soberania que ainda nos resta, e andar de mão estendida, a pedir a salvação da, mais que certa, banca rota ao FMI, ao BCE e á Comissão Europeia, metendo a Democracia no bolso, como teve de fazer o chefe do Governo grego.

Inclino-me assim, para considerar que aquilo que muitos rotulam de obsessão, talvez não seja um defeito, mas uma qualidade que nos valeu chegar ao fim do prazo do resgate, antecipando pagamentos e libertando-nos do jugo da troica.

É claro que o perigo ainda não passou totalmente, mas já podemos respirar, com um certo alívio.

Teimosia, determinação ou obsessão terão sido os condimentos da coragem que Pedro Passos Coelho teve, quando por palavras que só ele sabe quais foram, disse a Paulo Portas que tivesse juízo e se portasse como um homenzinho, ciente das suas altas responsabilidades e se deixasse de brincadeiras irrevogáveis.

Se nesse momento altamente crítico, Passos Coelho tivesse claudicado diante os jogos de cintura de Portas, e não tivesse tido o discernimento que efectivamente teve, teria sido o descalabro, e tudo quanto tivemos de cortar na carne, seria um sacrifício inglório e completamente inútil.

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Mais tarde, já diante o império Espírito Santo em chamas, Pedro Passos Coelho, certamente ao contrário do que os seus amigos mais chegados pensavam e esperavam dele, voltou ao seu registo de governante teimoso, e afirmou clarinho como água, que a torneira do erário público, jamais se iria abrir para pôr a mão por baixo ao BES e salvar o clã Espírito Santo e os seus negócios dúbios.

Tenho quase a certeza que essa foi a decisão menos esperada pelos penduras que vivem na babuje do orçamento do Estado. Mas é essa decisão improvável, juntamente com outras em que a sua teimosia toma a forma de coragem e determinação, que explicam o facto de as sondagens não terem resvalado para o desastre, em consequência da dureza dos anos de crise severa.

Apesar de reconhecer algumas virtudes em Passos Coelho, é claro que não estou de acordo com tudo quanto fez, principalmente por não ter sido capaz de distribuir equitativamente os sacrifícios, e ter poupado os que melhor podiam ajudar o país a erguer-se do caos em que estávamos a mergulhar em 2011.

Contudo, procurando ajuizar de forma sensata, e livre das paixões político-partidárias, tenho de reconhecer que não me posso dar ao luxo, de trocar o certo, teimoso, obsessivo, determinado e corajoso, pelo incerto, inconsistente e vulnerável às pressões e interesses instalados nos corredores do poder.

Espero que Pedro Passos Coelho vá mais fundo, e afirme essa determinação e coragem, para com gente que não tem perfil, nem um passado limpo, e sobretudo que nada dignifica o exercício do poder democrático em Portugal.

Em suma, mais que não seja, escolherei sempre do mal, o menos…

E nessa escolha, para já, Pedro Passos Coelho, está bem posicionado!…

 

 

Victor Dias

 

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