Street Art, skate e cidadania

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Street art
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Há vinte anos, em Nova Iorque, a proliferação de grafitis nas paredes dos edifícios, nas carruagens de combóis e do metro e em outros suportes não convencionais, levou o então prefeito da cidade, Rudolph Giuliano, a adotar medidas de criminalização dessa prática porque, sustentava ele, os jovens autores de tais pinturas mais não eram do que o embrião de grupos organizados, que assim delimitavam os seus territórios e abriam as portas a um inevitável caminho para a marginalidade.

Os grafitis não eram – nem continuam a ser – um problema exclusivo de Nova Iorque, pois contribuem para a degradação do espaço e dos bens públicos, cuja conservação compete às autoridades preservar.

Considerado de início como um movimento underground, a ação dos grafiteiros induziu, com o correr do tempo e com a evidente qualidade estética e artística que muitos grafitis passaram a apresentar, uma gradual mudança na maneira como as autoridades passaram a encarar o fenómeno, pelo que este ganhou foros de cidadania, agora sob a capa daquilo a que passou a ser chamado de street art, ou arte de rua, ganhando o direito a ser reconhecida como uma nova forma do fazer artístico.

Para tal mudança de atitude muito contribuíram as teses de Camillo Sitte, Ebenezer Howard ou Françoise Choay, a quem conhecidos grafiteiros como o britânico Banksy, ou português Vhils devem a sua ascensão, nos últimos anos, à categoria de artistas sérios, que viram os seus trabalhos artísticos reconhecidos pela comunidade e alvo de crescente valorização financeira, incluindo a sua admissão no seleto circuito das casas internacionais de leitões de arte.

O fenómeno do skate

Fenómeno quase paralelo se passou com os praticantes de skate. No início dos anos sessenta do século XX, marcados por marés baixas e uma prolongada seca nas cidades costeiras da Califórnia, que os impedia de se divertir no mar, muitos surfistas trouxeram as pranchas para terra, colocaram-lhe um par de rodas e improvisaram nas ruas uma nova maneira de surfar: o desidewalk surf, prática desportiva que depressa cativou o interesse dos adolescentes urbanos.

Para os sociólogos Anthony Giddens, que estudou os conceitos de identidade, ou Michel Maffesoli, cujos trabalhos se ocupam das chamadas tribos urbanas, a prática do skate – designação que substituiu a inicial e logo se popularizou – foi adotada, sobretudo por adolescentes e jovens adultos de extração urbana, primeiro como manifestação da sua identidade de grupo, ou de tribo, e depois como uma nova modalidade desportiva, com aceitação generalizada.

Tornou-se vulgar, por isso, que os governantes das cidades, vilas e outros aglomerados urbanos de muitos países – incluindo Portugal – destinassem a estas duas novas manifestações da arte e do desporto espaços apropriados à sua prática.
A utilização e o usufruto desses espaços constituem hoje, sem dúvida, claras manifestações de cidadania. E a cidade da Maia não escapa à regra.

A Maia não escapa

As paredes que enquadram o anfiteatro externo do Fórum da Maia, o muro que circunda o edifício dos SMAS, as paredes do edifícios que rodeiam o Parque Central, ou os painéis de betão que separam o claustro fronteiro ao Fórum do edifício dos Paços do Concelho, entre outros, servem de expositor a interessantes trabalhos dos grafiteiros maiatos. No mesmo local a Câmara da Maia instalou um skatepark, cujo perfil tem sido muito elogiado pelos especialistas.
O primeiro skatepark do mundo foi construído na cidade de Carlsbad, na Califórnia. Projetado pelos inventores Jack Graham e John O’Malley e por eles construído no interior de um pavilhão, devido às condições climatéricas extremas da cidade, ele serviu de modelo aos parques que se lhe seguiram e que, em geral, passaram a ser instalados ao ar livre, tal como sucede no centro da Maia.

Street art e skatepark, como vivas expressões de novas realidades artísticas e desportivas partilham, assim, um dos espaços mais nobres da cidade, que tem sido permanente alvo do zelo da Autarquia.

Esse zelo não tem sido suficiente, no entanto, para evitar que os equipamentos do skatepark sejam regularmente vandalizados pelos seus utilizadores, tal como não tem conseguido impedir que a colunata que ladeia o recinto, bem como as paredes dos edifícios públicos contíguos (por exemplo: a torre do Lidador, a Biblioteca Municipal, o Fórum da Maia e o edifício para onde vai ser transferido o Tribunal) estejam pejados de grafitis – alguns deles indecorosos e racistas – que nada tendo a ver com a street art não passam de puros e inaceitáveis atos de vandalismo.

Evitar desmandos

A estes comportamentos junta-se a maneira displicente como os frequentadores deste local destroem os equipamentos lúdicos instalados naquele local e ali deixam garrafas de cerveja, latas de refrigerante, embalagens de batatas fritas e de alimentos fast-food, bem como outros tipos de lixo, o que se traduz por comportamentos altamente reprováveis, que ofendem a dignidade daqueles espaços, danificam o património público, prejudicam a imagem urbana da cidade e violam os mais elementares deveres de cidadania, que incumbem à comunidade e a todos e a cada um dos seus membros.

Na Maia, hoje, talvez seja excessiva e desnecessária uma ação como a que foi protagonizada por Rudolph Giuliano em Nova Iorque. Mas é inegável que as autoridades locais têm uma importante palavra a dizer e um relevante papel a desempenhar na erradicação destes desmandos – sempre a bem do superior interesse da Maia e das suas gentes e para que o centro da cidade não acabe por se transformar, a curto prazo, num espaço marginal, que os seus habitantes evitem frequentar.

Joaquim de Matos Pinheiro

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