Um país em 3D!…

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É inevitável, mas não há volta a dar. Grécia tem sido e continuará a ser a palavra mais gasta.

Para além de todas as análises políticas, económicas e sociais que se têm produzido no espaço da opinião publicada, há uma figura que imerge da História, refiro-me é claro a Karl Marx, e muito em concreto à sua teoria do determinismo histórico.

Na verdade, se refinarmos as análises políticas, esbarramos sempre numa conclusão que informa do pensamento marxista de que o capital, na afirmação do seu esmagador poder, determina o curso da História.

Calculo que algumas pessoas ao lerem esta minha crónica me queiram colocar já na testa, o rótulo de comunista marxista. E até podia muito bem sê-lo, porque ninguém tinha nada a ver com isso.

Mas no mesmo uso da Liberdade que concede que alguém tire essas elações, declaro porque me apetece, e apenas por isso, que nada me move contra o capital, sobretudo contra o capital que respeita e reconhece o valor e a dignidade do trabalho.

Entendo que o capitalismo socialmente responsável, respeitador da dignidade humana, e cumpridor da Lei, tem no lucro das empresas, precisamente a sua primeiríssima responsabilidade social, porque só empresas lucrativas e economicamente saudáveis, podem dar sustentabilidade a uma sociedade justa e solidária.

Contudo, o que se passou na Grécia, ao longo da última semana e neste domingo histórico, foi a revelação de um país em 3D.

O primeiro D é de Democracia, porque apesar de todas as interferências e desrespeito pela soberania política do povo grego, houve um momento em que os cidadãos daquele país foram às urnas e decidiram o que não queriam.

O outro D, porventura o mais constrangedor, é o de dependência. Uma dependência trágica que pode, em última análise, vir a descambar numa catástrofe humanitária, obrigando a Europa e o ocidente, a intervir de uma forma assistencialista.

Por fim, resta o derradeiro D, o D que manda no Mundo actual, nesta era da globalização, o D do dinheiro.

Foi o dinheiro, e será o dinheiro a determinar o rumo da Grécia.

Independente da vontade democrática dos gregos, e muito para além dos estados de alma, da maioria dos líderes europeus, o dinheiro, de uma forma ou de outra, vai fazer valer o seu incomensurável poder.

Merkel, Hollande, Passos Coelho, Cavaco Silva e todos os outros chefes de Estado e de governo, acabarão por claudicar e submeter-se ao verdadeiro poder, o poder do dinheiro.

Quantos de nós, não conhecem histórias de famílias de agricultores, industriais ou comerciantes, que uma vez em dificuldades recorreram a empréstimos de famílias “amigas” e mais abastadas, que diante as dificuldades que os devedores revelavam em honrar os seus compromissos, foram emprestando mais e mais dinheiro, acabando no fim de contas por executar as hipotecas e ficar literalmente com tudo?

Ironia das ironias

Não deixa de ser irónico que tendo chegado ao poder a esquerda, quiçá muito inspirada em Marx, vá sucumbir aos pés do poder do capital.

Uma esquerda que conseguiu em seis meses, uma colossal fuga de capitais, uma astronómica descapitalização dos bancos e do próprio Estado grego, e uma radicalização do discurso político que se revelou uma das principais alavancas para a roptura do diálogo no seio do Euro grupo e da Troica.

Em suma, desta Grécia em 3D, ao contrário do que seria de esperar, o D que está no vértice da pirâmide, é o D do dinheiro, elevando-se sobre os outros que se encontram nas extremidades da base, o D de Democracia e o D de dependência dos credores.

Percebe-se assim que o poder do dinheiro submete às suas lógicas mercantilistas, todos os outros poderes, inclusive o poder político, supostamente legitimado pelo voto popular…

 

Victor Dias

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