União Europeia entre a espada e a Inglaterra

0
332
- Publicidade -

Alguns analistas de política internacional insistem que vivemos tempos interessantes. Sim, são interessantes, mas são sobretudo perigosos.

A História não se repete nas suas circunstâncias, mas rima muitas vezes. E rima, porque diante problemas complexos e inéditos, quem os pensa e se propõe resolvê-los, são pessoas, como sempre foram.

Então o que explica que persista esta tendência para cometer sempre os mesmos erros? É que a Humanidade não tem aprendido grande coisa com os erros do passado.

Uma atração fatal para abrir caixas de pandora

Nos últimos anos e meses, parece que nos precipitamos, assim como que por uma atração fatal para abrir todas as caixas de pandora.

Desde o Direito à Vida, valor estruturante da nova era da civilização, inaugurada com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, á suspensão ou mesmo eliminação de direitos liberdades e garantias que estavam dados como definitivamente inscritos na ordem jurídica constitucional de países democráticos, até a esta chantagem da Inglaterra, tem sido um tal destampar de caixas de pandora.

Face ao momento crítico em que o Mundo se encontra, com múltiplos focos de tensão e conflito aberto, com particular preocupação para o que se vive no Médio Oriente, fruto da guerra na Síria, temo que as instituições europeias e os líderes dos outros 27 países parceiros da Grã-Bretanha, se vejam forçados a ceder às pressões de Londres.

David Cameron sabe que não é bom para a Grã-Bretanha sair da União Europeia, principalmente devido ao facto de que essa saída iria inevitavelmente arrepiar caminho e aquecer o debate interno, á volta da autonomia ou mesmo independência dos povos que integram o Reino Unido, com particular acuidade para o problema da Escócia.

Por agora, Londres vai entretendo a política doméstica, com a necessidade de estarem unidos neste braço de ferro com os seus parceiros europeus. Mas se o vínculo for cortado, as forças que movem esse braço, vão precisar de procurar outras resistências para continuar a projetar-se politicamente. E aí, aí “é elementar meu caro Watson, é elementar”, porque a caixa de pandora vai abrir-se em Inglaterra, destapando ancestrais desejos e ambições que foram sendo reprimidas a fio de espada e guilhotina, ao longo de séculos e séculos, provando que por lá, a força é que fez a união.

Creio que não resta outra alternativa ao Conselho Europeu e à UE, do que dizer a Londres que entre a espada e a Inglaterra, escolhe a espada. E verão como a diplomacia britânica é exímia na arte de recuar. Até porque o melhor para a Grã-Bretanha, o melhor mesmo é ter motivos muito fortes, para alimentar um reino unido, numa dialética política que tem o foco numa negociação permanente com Bruxelas.

londres

Esta questão faz-me lembrar uma família que conheci em criança, cujo casal era constituído por duas pessoas divorciadas que se tinham voltado a casar. No seio desta família, havia filhos do marido, filhos da esposa, e filhos nascidos no novo casamento. As zangas e escaramuças internas entre a miudagem eram frequentes, e não raras vezes deixavam o casal diante o dilema da autoridade. Mas sempre que havia desentendimentos com a miudagem vizinha, as hostes daquela casa tocavam a reunir, e toda a gente se virava em bloco para o exterior.

Conclusão, enquanto o diferendo com a vizinhança se mantinha, a paz familiar reinava naquela casa. Mal comparada, há contudo alguma rima com esta relação difícil da Grã-Bretanha com a União Europeia.

Victor Dias

- Publicidade -