Votar é um dever do cidadão e um direito de quem?…

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Da política nada me interessa, a não ser a minha própria opinião e deveres cívicos.

Não tenho projeto pessoal nem ambições políticas, tenho o meu projeto de vida, mas isso é outra coisa. Embora seja nesse contexto que enquadre a minha cidadania.

Se é certo que o meu ideal de sociedade se enquadre mais no ideário da social-democracia, de tradição nórdica, nunca esqueço que nasci e vivo numa sociedade latina, com todas as suas virtudes e defeitos, e como tal, procuro tanto quanto me é possível, não ser um inadaptado à realidade.

Por estes dias, diante o ruído que vai pairando na opinião pública e publicada, tenho refletido muito sobre o dever e direito cívico de votar.

As circunstâncias políticas que estamos a viver atualmente em Portugal, têm como pano de fundo uma inequívoca legalidade constitucional. E tanto assim é que ninguém consegue encontrar na Lei fundamental do país, qualquer ponta, por onde possa respaldar a mais pequena hipótese de impedir o curso que os acontecimentos têm tomado, para a formação de um Governo com legitimidade democrática.

Sobre todo esse processo, o que tiver de ser será. Não vale a pena dramatizar ou sofrer por antecipação. Aconteça o que acontecer, no fim de tudo, nunca confundirei que é sempre melhor uma solução de Governo de base democrática, do que as soluções impostas ditatorialmente. Não confundamos, nunca confundamos as coisas.

A Democracia e a Liberdade servem para pôr em causa, para questionar, para criticar e “combater” leal e abertamente todas as opções políticas, sejam elas certas ou erradas, num pluralismo de opinião a todos os títulos desejável. Já a Ditadura ou o totalitarismo são a negação de tudo isso.

Mas o que me preocupa é uma questão bem mais funda, que me parece estar a escapar à maioria dos atores políticos e até aos analistas e comentadores. Refiro-me, é claro, à perda de sentido da utilidade do voto.

Se pensarmos bem, quer dizer, sem preconceitos partidários ou condicionamentos sectaristas, seria interessante perguntar a várias centenas de milhares, senão a mais de um milhão de eleitores portugueses, qual foi o verdadeiro sentido que quiseram expressar através do seu voto, a 4 de Outubro de 2015?

Ora vejamos!

Quem votou na PAF queria um Governo suportado pela coligação, certo?

Quem votou no PS queria um Governo de maioria própria, e não concebia entendimentos com a CDU ou com o BE, não é verdade?

Quem votou na CDU não queria um Governo da PAF, mas também não queria o PS em S. Bento, é ou não é? E quem quiser comprovar este pensamento, basta fazer uma análise de conteúdos das notícias publicadas pelos jornais durante a campanha eleitoral.

E quem votou no Bloco de Esquerda, não queria o Governo da PAF, nem do PS e tão pouco da CDU, ou não?

E não eram estes partidos, todos eles, forças com as quais seria impossível qualquer tipo de diálogo ou aproximação?

Do mesmo modo, bastará dar uma vista de olhos aos jornais, e depressa se confirma o que acabo de afirmar.

A pergunta mais cortante que se impõe, pretenderá saber o que pensam todos os eleitores que entregaram os seus votos a estas forças políticas?

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A ressignificação do voto

Coloca-se então uma questão que merece, a meu ver, atenção, reflexão e ponderação, muita ponderação.

É uma questão do domínio do simbólico e do significado que cada pessoa, cada cidadão eleitor, atribui ao ato de votar.

O ato de votar, que tem a montante da sua íntima decisão, em plena cabine de voto, todo um processo individual, de interpretação das mensagens políticas, dos sinais da realidade concreta da vida de cada um e da coletividade, que resulta finalmente na atribuição de um significado e do respetivo sentido que cada um quer dar ao seu voto.

Em última análise, creio ser possível e igualmente legítimo concluir, que há em todo o processo que se tem vindo a desenrolar na política à portuguesa, um risco muito real, de descaracterização da essência do significado cívico do voto.

Um risco que advém do facto, de muitos cidadãos, nunca saberemos quantos, estarem a elaborar mentalmente, que o seu voto, afinal não teve a consequência que queria que tivesse, mas que outros, à posteriori, lhe atribuíram em nome da tal inequívoca legitimidade democrática.

Embora não encare a política como um jogo, tal como a encaram muitos políticos, o que se tem passado faz lembrar aqueles apostadores que jogam nas corridas de cavalos, e que votam no cavalo A, mas que depois descobrem que quem escrutina as apostas, utilizou a sua aposta no cavalo B. Ainda que o cavalo B se sagre vencedor, o apostador sentir-se-á sempre ludibriado.

Esta não é uma questão menor, e receio bem que em próximos atos eleitorais, possa já revelar as suas consequências mais gravosas, pelo efeito desmobilizador que esta perda de sentido pode já ter provocado, levando muitos cidadãos a perguntar-se para quê? Para quê e a quem serve o meu voto?…

Creio estarmos em presença de um síndroma cívico que está a fazer o seu caminho, tomando proporções e efeitos sintomatológicos que só virão ao de cima, a médio ou longo prazo.

Victor Dias

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