Américo “Endireita” vai dar nome a rua de Silva Escura

Américo Silva Santos, mais conhecido por Américo “Endireita”, devido aos seus dotes na medicina popular, vai ser nome de rua em Silva Escura. Uma ideia da junta de freguesia e uma “justa” homenagem, de acordo com o presidente, José Sousa Dias. A atribuição do topónimo foi aprovada pela Comissão de Toponímia da Câmara Municipal da Maia.

A PRIMEIRA MÃO, confessa que nem queria que lhe fizessem esta homenagem. “Não gosto de grandezas”. Afirma-se uma pessoa simples e humilde, que não gosta muito de dar nas vistas. A rua que irá receber o seu nome de nascença fica na nova urbanização de Frejufe, situada nas traseiras da casa onde nasceu e vive actualmente, na Travessa Central de Frejufe. A escolha do local para a homenagem deixou-o satisfeito, e à esposa, orgulhosa. E brinca, “quando me apetecer vender, vendo tudo”.

Foi José Sousa Dias que deu a conhecer a decisão do executivo da junta, por ser um “grande benemérito da freguesia”. “Ele está sempre disponível para tudo. Mesmo para as obras da igreja paroquial, que está um luxo. É a igreja mais linda daqui da zona”, diz Adélia Silva, esposa de Américo Silva há 49 anos.

Na freguesia é também conhecido pelo trabalho que tem desenvolvido na paróquia. Em 1944 começou como ajudante de missa do reverendo padre António Francisco Sousa. E assumiu o cargo de Juiz da Cruz em 1970 e a tarefa de tocar o sino e o zelo das alfaias da igreja. Hoje, os sinos são eléctricos e o pároco conta com a ajuda de outros acólitos. Mas, de resto, “sou eu que faço tudo na igreja. Sou o zelador das alfaias da igreja. Ninguém faz nada sem falar comigo”, afirma.

Foi através de uma senhora “muito velhinha” de São Romão do Coronado, também conhecida na medicina popular, que descobriu o dom que possuía nas mãos.

“Ela teve problemas, até foi julgada e suspensa. Não podia fazer aqueles trabalhos. Mas as pessoas iam lá e ela pedia-me para ajudá-la. Ela um dia pôs as mãos dela nas minhas e disse ‘você tem mãos para isto, mas vai ajeitar problemas’. E eu disse ‘há-de ser o que Deus quiser’. E eu, sempre com aquela vontade, nas orações da Santa Missa, pedia para que Deus me desse uma luz e uma inspiração para que eu pudesse fazer esse serviço”, revela. Foi desde então que Américo Silva Santos dedicou a sua vida a tratar as maleitas físicas dos outros. “Isto não é de aprender. É um dom”, diz a esposa, Adélia Silva.

Hoje, é conhecido no país pelo Américo “Endireita”. À sua casa, por dia, recorrem dezenas de pessoas. E ajuda-as graciosamente. Não cobra dinheiro a ninguém, garante. As pessoas dão o que podem e o que quiserem.

“Mãos abençoadas”

Américo Silva Santos não faz qualquer preparação espiritual quando está a tratar as pessoas. Apenas coloca as suas mãos na pessoa, e aí, “sente nele a dor da pessoa”. É tudo uma questão de fé. “Basta colocar a mão e sei logo o que a pessoa tem”, diz. E apesar de sentir na pele a dor do paciente, fica satisfeito quando o consegue tratar.

O seu único objectivo é “aliviar a dor e o sofrimento” de quem o procura. Batem à sua porta pessoas das mais diversas profissões e classes sociais. “Vêm aqui médicos, advogados, padres”, revela. Atletas, militares da GNR e pessoas de vários pontos do país.

“A freguesia foi conhecida por mim, dizia a junta e o padre da freguesia”, refere.

E essa terá sido uma das razões que levou a junta a avançar com a ideia de dar o seu nome à rua junto à sua casa. Já com 76 anos de idade, Américo Silva Santos só descansa ao domingo. De resto, trabalha de segunda a sexta-feira a partir das 15h00 e aos sábados de manhã. Chega ao fim do dia “cansadíssimo”. Mas diz, “faço isto com gosto e sem interesse. Tanto faço para o pobre como para o rico”. O domingo é para ir à igreja e para a família.

Entre os vários casos que tratou, Américo recorda um que lhe ficou gravado na memória. Tratava-se de uma criança que chegou a sua casa ao colo do pai, um pescador de Lavra. A criança não conseguia andar e já tinha percorrido vários médicos, mas ninguém o conseguia tratar. “Eu deitei-lhe a mão e saiu daqui a andar. O pai ficou abismado. Tinha os tendões fora do sítio nas ancas. Meti-lhe os tendões no sítio, dei-lhe as massagens e liguei-o”, lembra. Entre atletas conhecidos que recorreram à ajuda de Américo Silva Santos constam os nomes de Albertina Dias e Fernanda Ribeiro. Lembra o caso de Albertina Dias. “Há um anos, teve um problema. Foi ao hospital onde lhe disseram que tinha de estar oito dias com o pé ligado para cima. Ela veio aqui e ao fim de três dias foi correr e ganhou”. Em agradecimento, a atleta voltou dias mais tarde para lhe entregar a taça que recebeu por ter vencido a prova. Outro paciente ofereceu-lhe um quadro com a imagem de umas mãos em posição de oração, em agradecimento pelas suas “mãos abençoadas”.

Américo Silva Santos tem um dom único, que para sua tristeza, deverá morrer com ele. “Tenho pena de não ter ninguém na família para continuar”, confessa.

Uma pessoa do “bem”

Por ser uma figura de relevo na freguesia de Silva Escura e no concelho da Maia, e pela sua generosidade e vontade de ajudar o próximo, há muito que a junta tencionava homenagear Américo Silva Santos. “Estávamos só à espera que esse arruamento fosse nas proximidades da residência onde ele vive”, explicou o presidente da junta, José Sousa Dias. Uma justa homenagem, diz o autarca, “visto ser uma pessoa que tem praticado o bem, sempre pronta a ajudar todas as pessoas que o solicitam, que trabalha muito para o bem-estar da saúde das pessoas, e que tem praticado o bem na freguesia, dando donativos para a nossa igreja”.

A data da inauguração ainda não está marcada, uma vez que a junta aguarda pela disponibilidade de agenda do presidente da Câmara Municipal da Maia.

Outra das personalidades a ser homenageada, com nome de rua no mesmo loteamento da urbanização de Frejufe, será José Fernando Moreira de Sá. Foi o primeiro e único ciclista nascido na Maia a vencer uma Volta a Portugal em bicicleta no ano de 1952.

Facto que o levou a alcançar um lugar de relevo no panorama do ciclismo nacional.

Fernanda Alves