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Carregar uma canastra é para quem tem “calo”

O calor obrigava as pessoas a resguardarem-se, aproveitando todas as sombras disponíveis ao longo do percurso das canastras floridas, desde a igreja matriz até ao Monte da Senhora da Hora, em Nogueira. Em desfile estiveram nove canastras, cada uma delas em representação dos lugares da freguesia – Igreja, Vilar, Pena, Rio, Barroso, Casal, e também das três escolas – Monte Calvário, Barroso e EB2,3 de Nogueira. A acompanhar o desfile, para além dos devotos da Senhora da Hora, esteve a Fanfarra de Gaitas de Pontevedra.

A experiência de décadas fazia com que carregar as canastras fosse uma tarefa fácil para as mulheres de Nogueira, quase todas com idades acima dos 60.

A carregar a canastra do lugar de Vilar estava a mulher mais jovem. E curiosamente, ou não, foi a que mais dificuldade teve a carregar a canastra. É que de acordo com as mulheres mais experientes, o mais importante nesta missão não é ser jovem, mas sim ter “calo”.

Não é o peso. É o tentear da cabeça. Eu até venho com a minha cabeça um bocadinho torta, mas tem de ser assim. Não é o peso, porque íamos com elas nem que fosse até ao fim do mundo. Temos é de tentear (equilibrar) para ela não cair”, refere Rosa Carvalho, que há mais de duas décadas carrega a cesta do lugar do Rio, não por promessa, mas simplesmente porque gosta e considera importante manter a tradição. Questionada sobre se estava cansada, respondia dizendo que “se fosse preciso ia mais duas ou três vezes. Não custa nada”. Rosa Carvalho tem 68 anos. Foi ela que ao ver em dificuldades a companheira do lugar de Vilar se ofereceu para ir lá buscar a canastra. Mas acabou por não ser preciso.

Diamantina Marques Mandim tem mais seis anos em cima. O peso da idade não a impede de carregar a canastra do lugar de Pena. É assim há 15 anos consecutivos. Mas foi com 19 anos de idade que carregou a sua primeira canastra. Depois, a festa foi interrompida. “Toda a vida gostei disto”, assegura.

Deixando a promessa de que “para o ano há mais”, Ilídio Carneiro, coordenador e presidente da Junta de Freguesia de Nogueira sentia-se “orgulhoso” e “honrado” pelo trabalho realizado e pelo empenho da população em manter a tradição.

As canastras floridas ficaram em exposição na capela do Monte da Senhora da Hora, e no domingo regressaram à igreja matriz, integrando a procissão solene.

Fernanda Alves