Opinião de Victor Dias: Uma rica geração

Nos últimos tempos, tenho convivido intimamente com mulheres e homens cuja idade se encontra na faixa dos sessenta, partilhando com essas pessoas, aspectos das nossas vidas que nos unem, por causas, valores e crenças comuns.
Tenho aprendido imenso, sobretudo coisas que não vêm nos livros e nenhuma escola nos pode ensinar, a não ser, a vida.
Essas mulheres e homens que na sua maioria viveram uma infância marcada por dificuldades e aprenderam a conviver com as carências materiais, do mesmo modo que se habituaram a relativizá-las e por isso foram crianças felizes que brincaram, sobretudo, com o que a natureza lhes proporcionou, dando largas à sua imaginação e criatividade. Essa realidade em que cresceram, ajudou-os a valorizar o essencial e a administrar com parcimónia e com juízo, os recursos que ganharam com o seu trabalho, construindo pacientemente o seu futuro.

Hoje, face a uma realidade tão diferente, essa geração tem sido, para os seus filhos e, às vezes netos, uma base de suporte, ou talvez bem mais do que isso, tem sido um porto de abrigo, de onde se avista o farol da confiança e da esperança. Um porto de abrigo que acolhe com amor, que conforta na hora do desalento, perante a doença, o desemprego ou mesmo diante o desmoronar das suas uniões conjugais e famílias, situações tantas vezes ditadas por factores exteriores às relações de afecto e aos laços de sangue.
A palavra das pessoas que possuem este património espiritual, intelectual e social, aporta quase sempre, um timbre alicerçado na sensatez, na serenidade e na capacidade de saber primeiro ouvir, compreender e só depois, então sim, sem julgar, dispensar a ajuda adequada e necessária.

Mas não se pense que estas pessoas apenas olham para o seu umbigo, ou seja, só se preocupam com os seus, com os filhos, netos ou familiares. Nada disso, bem pelo contrário, tenho encontrado muitas delas, detentoras de uma riquíssima sabedoria e experiência de vida, doando voluntariamente o seu tempo, trabalho e afecto, com total generosidade e empenho, a causas solidárias de apoio social e humanitário, a favor de franjas mais desfavorecidas e desprotegidas da sociedade.
Nutro por essas pessoas, um enorme respeito e admiração e tenho plena convicção de que o seu exemplo e testemunho de vida são motivo de estímulo e incentivo, para muitos jovens que, com igual generosidade e espírito de serviço lhes seguem as passadas.

Como os leitores certamente conhecem, muitas das pessoas que se encontram agora na década seis das suas vidas, aposentaram-se numa idade em que as suas capacidades profissionais estavam, porventura, no auge da sua eficiência e eficácia. O mercado de trabalho e a economia, não tiveram o discernimento de perceber a extrema validade e utilidade da sua experiência profissional e optaram por antecipar o fim das suas carreiras. A prova mais evidente de que este capital humano tinha ainda muito potencial produtivo para dar, está justamente no facto, dessas pessoas não terem baixado os braços e terem decidido por se manterem energicamente activas, desenvolvendo os seus próprios projectos e/ou, dedicando-se às suas comunidades, por via do trabalho nas instituições de solidariedade humana e social, muito naquela divisa de quem sabe que não pode mudar o Mundo, mas que pode ajudar a mudar o mundo de quem está a sua volta.

Sei que esta minha prosa não vai colher grande interesse na comunicação social, porque não explora nenhum sensacionalismo, especulação gratuita ou qualquer assunto chocante, mas também não é essa a minha intenção, apenas pretendo deixar aqui, o meu olhar e apreço, por essa rica geração que é para mim uma referência de vida e que tantas vezes me faz recordar com um sorriso da alma, a minha mãe e o meu pai.

Victor Dias